Título: Lula critica uso da soja na produção de biodiesel
Autor: Lacerda, Angela
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/08/2008, Economia, p. B18
`Como matriz principal, é perigoso¿, diz o presidente a agricultores
Angela Lacerda
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou ontem um tom de prudência, ao manter sua incansável defesa do programa do biodiesel. Em Quixadá, no sertão cearense, ele alertou que a adoção da soja como matriz principal do programa de biocombustíveis ¿é um equívoco e um erro¿. ¿A soja tem seu preço determinado pelo mercado internacional, ou melhor pela Bolsa de Chicago, porque é commodity e, se o preço da soja subir muito no mercado internacional como subiu no começo do ano, fica caro para produzir biodiesel, e aí não é prudente.¿
Para ele, prudente é utilizar a soja quando há excesso de produção e o preço cai no exterior, ¿até para regular o mercado de soja¿. Mas, como matriz principal, é muito perigoso colocar tudo que for commodity com preço determinado fora do País. ¿É aquela desgraça que a gente de vez em quando vê acontecer e não sabe como tratar¿, disse a cerca de 2 mil produtores rurais, reunidos sob um imenso toldo climatizado. Os agricultores poderão produzir matéria-prima para biodiesel, como mamona e girassol.
¿De repente, estou vendo a inflação brasileira causada por commodities e a gente não pode fazer nada porque o preço não é determinado no Brasil¿, reforçou o presidente, ao inaugurar a segunda usina de biodiesel brasileira, em Quixadá, pela Petrobrás Biocombustíveis, subsidiária da Petrobrás.
A usina representa um investimento de R$ 100 milhões e deverá funcionar, nos próximos seis meses, em fase de teste. A meta é que 50% da produção da usina - que deverá gerar 57 milhões de litros por ano - venha do pequeno produtor, que será estimulado a plantar as matérias-primas. Cerca de 8,5 mil agricultores de 161 municípios cearenses e mais 750 de 32 municípios do Rio Grande do Norte estão cadastrados para fornecer matéria-prima.
Ao falar no evento - prestigiado por cinco ministros, parlamentares e diretores da Petrobrás e da Petrobrás Biocombustíveis -, a representante dos pequenos agricultores, Antonia Ivoneide de Melo Silva, cobrou preço mínimo para matéria-prima, capacitação, crédito e assistência técnica. ¿O programa só é viável se o trabalhador não passar fome¿, destacou, ao exigir ¿soberania popular, alimentar e energética como direito do trabalhador¿.
Lula aceitou o desafio e conclamou os trabalhadores, representados por Contag, Fetraf, sindicatos e sem-terra, a se organizarem e a ¿acompanhar e denunciar ao governo o que estiver acontecendo de errado para poder consertar¿. ¿Se a gente consertar agora, pode ser um programa maravilhoso, se deixar andar errado pode-se estar plantando um monstrengo.¿
Ele pregou que não se pode permitir que o programa ¿caia nos desvios que outros programas bem-intencionados caíram no Brasil¿. Lula repetiu que a discussão do biodiesel não é fácil, tem causado polêmica e grandes debates pelos que dizem que a produção de biodiesel substituirá o alimento.
Didático, afirmou aos que trabalham na agricultura familiar que, ¿se alguém deixar de plantar o alimento e dedicar toda sua terra para plantar coisas do biodiesel está cometendo erro¿. Segundo ele, um agricultor não pode ¿deixar de produzir combustível para o seu estômago, para suprir uma necessidade energética e orgânica, para encher o tanque de um carro¿. ¿É totalmente compatível uma grande política de biocombustível e uma grande política de produção de alimentos.¿
TÁBUA DE SALVAÇÃO
¿Como o programa (do biodiesel) é muito novo, queremos transformá-lo quase numa tábua de salvação para uma parte empobrecida do País, mas também precisamos que outros setores produzam porque para colocar 5% ou 10% no óleo diesel, haja terra para produzir.¿
Lula defendeu a pesquisa e a combinação dos avanços tecnológicos na escolha das matérias-primas mais adequadas, o que pode levar cinco ou dez anos. ¿Quanto mais tecnologia a gente tiver, mais litros a gente vai produzir por hectare e menos terra vamos utilizar¿, exemplificou. ¿Vamos ter que escolher a oleaginosa que produz mais óleo por hectare.¿
O presidente voltou a se dizer convencido de que o programa de biodiesel é a grande oportunidade de desenvolver o semi-árido nordestino, conhecido como a parte mais miserável do País. ¿Nós brasileiros não podemos aceitar quer apontem os dedos sujos de óleo para o Brasil, que quer produzir um combustível limpo e renovável.¿
Lula deu os parabéns ao governador cearense Cid Gomes (PSB), que prometeu um subsídio do governo estadual no valor de R$ 200 por hectare plantado para o biodiesel. Segundo Cid, tudo o que o seu Estado produz hoje não dá para atender a 10% da capacidade da usina recém-inaugurada. De acordo com o presidente, o biocombustível não vai competir com o petróleo, será uma ajuda.