Título: Crivella defende Exército e diz querer mais tropas em favelas
Autor: Gallucci, Mariângela
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/08/2008, Nacional, p. A8

Em primeira sabatina do Grupo Estado, candidato considera mortes da Providência caso isolado

Luciana Nunes Leal e Adriana Chiarini, RIO

Na primeira das sabatinas do Grupo Estado com os candidatos à Prefeitura do Rio, o concorrente do PRB, senador Marcelo Crivella, assumiu ontem a defesa do Exército no episódio que resultou na morte de três jovens do Morro da Providência em junho e anunciou que, se eleito, fará novas parcerias com a Força. Segundo ele, a corporação tomou uma decisão ¿perfeita¿ no caso e não deve ser responsabilizada pelo incidente, em que militares, desobedecendo a uma ordem, entregaram os rapazes a traficantes do Morro da Mineira, rivais da quadrilha da Providência, que os torturaram e assassinaram.

O senador afirmou que o ¿ato deplorável¿ foi resultado da ¿intempérie (sic) de um jovem¿, referindo-se ao tenente Vinícius Ghidetti, comandante da patrulha. ¿Por arrogância, não obedeceu (à ordem)¿, afirmou. O Exército estava na favela para garantir a segurança das obras do programa Cimento Social, projeto de autoria de Crivella.

Primeiro colocado nas pesquisas, o senador defendeu a extensão do programa a outras comunidades e disse que, se eleito, pedirá a ajuda das Forças Armadas onde houver obras. ¿Não podemos, por causa de um episódio que todos devemos lamentar, abdicar do direito de fazer novas obras¿, afirmou. ¿Não podemos culpar as Forças Armadas pela intempérie de um jovem. A decisão do Exército de soltar os jovens foi perfeita.¿

Crivella falou do Morro da Providência ao detalhar suas propostas para habitação, que citou como uma das três prioridades do programa de governo, ao lado de saúde e educação. Ele propôs a construção de 100 mil casas populares em parceria com o governo federal, pelo Sistema Nacional de Habitação com Interesse Social. À prefeitura caberia investimento de R$ 1,3 bilhão em todo o projeto.

¿É quase o valor da Cidade da Música¿, comparou, ao criticar uma polêmica obra do prefeito Cesar Maia (DEM) na Barra da Tijuca, que custou cerca de R$ 500 milhões. ¿Não vou construir monumentos de concreto e cimento. Vou tratar do povo.¿

Crivella provocou risos ao explicar a contratação do publicitário Duda Mendonça, responsável pela vitoriosa campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, como consultor de marketing de sua campanha para a prefeitura.

Duda admitiu à CPI dos Correios ter recebido dinheiro de caixa 2 do publicitário Marcos Valério, em conta no exterior, por serviços prestados. É um dos 40 réus no processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. ¿Contratei Duda não para ser meu conselheiro tributário, mas para fazer uma campanha de marketing e vencer a discriminação no Rio¿, disse. ¿Se Duda cometeu erros, a Justiça vai julgar. O Duda Mendonça tem nos ajudado muito, como ajudou Lula. É uma honra ter a ajuda do Duda.¿

De acordo com o senador, o trabalho de Duda e sua equipe, incluindo a produção dos programas de TV, vai custar R$ 1 milhão - valor considerado baixo no mercado. ¿O contrato é pagamento em cheque do partido¿, esclareceu. Crivella calculou gastar ao todo ¿R$ 4 milhões ou R$ 5 milhões na campanha¿.

UNIVERSAL

Questionado sobre o temor de que, se eleito, confunda religião e governo, o senador - bispo licenciado da Igreja Universal - reiterou a promessa de não levar integrantes da igreja para a equipe. Garantiu também que vai manter a lei municipal que autoriza o pagamento de pensão a companheiros de servidores municipais homossexuais.

¿O Rio não precisa de líder religioso, de guerra religiosa¿, afirmou. Crivella também disse que não deixaria de visitar um centro de candomblé, uma das religiões mais atacadas por grupos evangélicos. ¿Não vou patrulhar o carnaval, o vestido, a maneira como as pessoas festejam¿, afirmou. E brincou: ¿Não vou desfilar no carnaval.¿ Ele prometeu acabar com a aprovação automática dos alunos da rede pública municipal e melhorar a merenda distribuída aos estudantes. Sua principal promessa para a saúde foi a ampliação do programa Saúde da Família, em parceria com o governo federal.

Ele acusou a bancada estadual de São Paulo de tentar tirar os royalties do petróleo do Rio. Alegou que a legislação do ICMS beneficia São Paulo em relação aos produtos industriais, com a cobrança no local da produção, e ao petróleo, com taxação no local do refino. Por fim, disse que poderia ser estudada uma nova fórmula de distribuição dos royalties entre os municípios fluminenses.

O candidato foi irônico ao comentar a inclusão da imagem de Lula em seu programa de TV - levou ao ar uma rápida cena com ele abraçado ao presidente. O programa seguinte, do candidato do PT, Alessandro Molon, começou com uma declaração de Lula e deixou a impressão de que ainda era o do PRB. ¿Não fui eu, foi o Molon. Molon é muito generoso, mas vou ligar para ele. Não pode, a Justiça vai brigar.¿

PROGRAMAÇÃO

A sabatina foi mediada pelo diretor do Grupo Estado no Rio, Marcelo Beraba, e teve a participação dos jornalistas Irany Tereza e Wilson Tosta, além de perguntas de internautas e convidados.

A série é promovida na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e transmitida ao vivo pela TV Estadão (www.estadao.com.br), sempre das 11 às 13 horas.

O petista Alessandro Molon participa hoje do evento. Na próxima semana, de segunda a sexta-feira, serão sabatinados Eduardo Paes (PMDB), Fernando Gabeira (PV), Solange Amaral (DEM), Chico Alencar (PSOL) e Jandira Feghali (PC do B).