Título: Investimento pode chegar a R$ 1,5 tri
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/08/2008, Economia, p. B10
`Não é vôo de galinha, é de uma águia que descobriu que pode voar mais alto do que estava acostumada¿, diz Lula
Brasília
O volume de investimentos públicos e privados na economia brasileira será de pelo menos R$ 1,5 trilhão no período de 2008 a 2011, um aumento de 68,7% em relação aos quatro anos anteriores. Esse número ainda não inclui o valor que será investido no desenvolvimento dos campos de petróleo do pré-sal.
Esses dados fazem parte de um levantamento apresentado ontem pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, a uma platéia composta pelos responsáveis por boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).
A festa em clima de palanque eleitoral, organizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, procurou mostrar que o crescimento econômico sustentado deixou de ser um discurso . ¿Não é um vôo de galinha¿, disse Lula. ¿É o de uma águia que descobriu que pode voar mais alto do que estava acostumada.¿
Na celebração, a perspectiva de agravamento da crise econômica norte-americana foi só coadjuvante. Coutinho destacou que, depois de um ano de existência da crise das hipotecas de alto risco (subprime) nos Estados Unidos, as decisões de investimentos no Brasil ¿nem tremeram¿.
Desde a eclosão da crise do subprime, em agosto do ano passado, os projetos em análise no BNDES aumentaram 30%. A taxa de investimento cresce a um ritmo duas vezes superior à expansão do PIB. Segundo Coutinho, a taxa de investimento no Brasil vai chegar a 21% do PIB em 2010. Em 2008, esse indicador ficará em 18,5% do PIB.
¿Os investimentos cresceram em ano de crise internacional, mas não quer dizer que está tudo resolvido, que podemos subir no salto alto¿, disse Coutinho. ¿Assim como atravessamos essa crise, podemos atravessar as tormentas que estão por vir.¿
A cifra de R$ 1,5 trilhão é a estimativa mais conservadora do volume de investimentos para os próximos quatro anos. Na realidade, no BNDES há um total de R$ 2,3 trilhões em projetos em exame e já aprovados, mas uma parte pode não ser concretizada. Ainda assim, o ritmo é frenético. ¿Há tantas fábricas em construção que faltam bate-estacas¿, comentou Coutinho.
Somente o setor de petróleo receberá um montante de investimentos de US$ 112,4 bilhões até 2012, segundo informou o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli. ¿Isso sem considerar os substanciais investimentos necessários para desenvolver o pré-sal¿, comentou.
`RECLAMADORAS¿
O presidente Lula não se mostrou satisfeito com os números apresentados por sua equipe.Ele disse que, depois de assistir às detalhadas apresentações de Coutinho e Gabrielli, pensou: ¿Coitados, não sabem o que está acontecendo no País¿. Segundo o presidente, o volume é muito maior, se forem considerados os investimentos dos governos dos Estados e dos municípios.
O vigor do processo de investimentos foi frisado por Lula. Ele disse que o mais recente alto-forno do País foi inaugurado há 22 anos. ¿Hoje, estão projetadas dez novas grandes siderúrgicas, que dobrarão a produção nacional de aço em seis anos¿, informou o presidente.
Num ato falho, ao falar da evolução dos investimentos no setor de veículos, Lula chamou as fábricas de ¿reclamadoras¿, em vez de montadoras. Este ano, a indústria automobilística prevê produzir 3,5 milhões de unidades; em 2013, serão mais 6 milhões de veículos.
Quatro fatores explicam a força dos investimentos, segundo Luciano Coutinho: o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), as oportunidades ampliadas de exportação, a demanda crescente por insumos básicos e a ampliação do mercado interno.
O professor Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), fez uma palestra mostrando que a classe C da sociedade brasileira cresceu 22,8% nos últimos quatro anos, enquanto as classes A e B cresceram 33,6%.
REFORMAS
Os números dos investimentos poderiam ser maiores, segundo avaliou o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro. Para ele, a aprovação de reformas como a tributária e a trabalhista criaria um clima mais favorável para investimentos.
A possibilidade de agravamento da crise nos Estados Unidos - a recessão prevista pelos economistas - não preocupa o presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli. ¿Trabalhamos com uma visão de longo prazo¿, explicou ele, acrescentando que fenômenos como esse afetam mais o mercado financeiro que a indústria.
¿Para nós, a tendência nos próximos 15 a 20 anos é que a economia continue crescendo, a Ásia continuará crescendo e o Brasil entrará em rota sustentável¿, disse o executivo da Vale.
LU AIKO OTTA, FABIO GRANER, LEONARDO GOY