Título: Itamaraty ganha 900 diplomatas na era Lula
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/08/2008, Nacional, p. A16
Pasta teve orçamento ampliado em 33,7%, além da abertura de 48 postos no exterior, expandindo fronteiras da política externa intocadas por 18 anos
Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA
Nos cinco anos e nove meses da política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2008), o Itamaraty expandiu as fronteiras que manteve ao longo de, pelo menos, 18 anos. Excetuados os gastos com pessoal, o orçamento de custeio da Casa saltou para a cifra do R$ 1 bilhão neste ano, 33,7% a mais que em 2003. Além disso, 900 novos diplomatas ingressaram na carreira. No exterior, 48 novos postos foram abertos ou estão em vias de serem inaugurados, 32 dos quais embaixadas.
Na chamada Secretaria de Estado - a estrutura em Brasília -, mais 44 unidades administrativas foram criadas. A maioria está sob o comando de novas subsecretarias, a da América do Sul e a de Política 2, voltada para as relações com os demais países em desenvolvimento. A secretaria de Energia será instalada até o final do ano.
A dilatação da estrutura do Ministério das Relações Exteriores responde essencialmente às ambições do governo Lula na área internacional, entre as quais a candidatura do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e o estreitamento das relações com o mundo em desenvolvimento. O desenho do chanceler Celso Amorim para o Itamaraty previu a criação das três novas subsecretarias e a instalação de pelo menos 14 das 32 embaixadas planejadas.
Já estão em operação seis novas embaixadas na África (Sudão, Tanzânia, Botsuana, Camarões, Congo e Guiné Equatorial), três na Europa do Leste (Croácia, Eslovênia, Eslováquia), duas no departamento Hemisfério Ocidental (Bahamas e Belize) e três na Ásia (Armênia, Casaquistão e Sri Lanka). Na mesma linha, foram instalados dois novos consulados: em Mumbai, na Índia, e em Mendoza, na Argentina.
No mundo desenvolvido, o Itamaraty instalou um consulado-geral em Madri e decidiu ampliar a presença do Brasil em organismos internacionais. Em Viena, onde está a sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), foi aberta uma nova missão, para aliviar as incumbências da embaixada na Áustria e acompanhar melhor as negociações em curso na AIEA. A iniciativa responde ao projeto do governo de ampliar o escopo do programa nuclear.
A missão junto aos organismos internacionais sediados em Genebra foi desmembrada em duas para resolver um imbróglio gerado pela última ciranda de embaixadores, promovida pelo chanceler Celso Amorim. Até o fim deste mês, todos os designados para o posto cumpriam suas tarefas ante a Organização Mundial do Comércio (OMC) e delegavam a representação do Brasil diante dos demais organismos, como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o ¿embaixador alterno¿. Ambos usufruíam uma mesma estrutura física e de pessoal.
Com a ciranda, o embaixador Roberto Azevêdo, subsecretário de Assuntos Econômicos e Tecnológicos do Itamaraty, passará a atuar junto à OMC, em um prédio específico e com pessoal próprio. A figura do embaixador alterno foi abolida nesse caso. Sua mulher, a embaixadora Maria Nazaré Farani Azevêdo, considerada a mais poderosa diplomata no recente período em que ocupou a chefia de gabinete de Amorim, ganhou nova estrutura em Genebra, da qual conduzirá as relações com organismos internacionais. Ambos devem ocupar a mesma residência, mas seus sucessores, em princípio, deverão requerer dois imóveis diferentes.
LUZ CORTADA
No governo Lula, o orçamento do Itamaraty foi ampliado em 33,7% graças às intervenções do secretário-geral das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Polêmico por sua orientação ideológica, ele foi o primeiro diplomata a enfrentar os Ministérios do Planejamento e da Fazenda. No final de 2003, quando o Itamaraty passou pelo vexame de ver a energia elétrica cortada pela Companhia Energética de Brasília (CEB), por falta de pagamento, foi Pinheiro Guimarães quem negociou a suplementação para pagar essa conta e os salários atrasados dos diplomatas em postos no exterior.
Um dos bordões do diplomata é ¿sem recursos e sem pessoal treinado, não há política externa¿. Com esse argumento e o entusiasmo de Lula pela agenda do Itamaraty, conseguiu expandir o número de diplomatas de 1.024, em 2003, para 1.380, neste ano. Em 2010, mais 100 ingressarão no Instituto Rio Branco para a formação diplomática.
A metade do contingente, em média, atua no exterior. Nos últimos cinco anos e meio, o Itamaraty conseguiu, ainda, estancar a tendência de abandono da carreira elevando a remuneração. Em 2003, o salário de terceiro-secretário, o primeiro degrau da carreira, era de R$ 4.556 mensais. Hoje é de R$ 7.752.