Título: Correa escala delegados de sua confiança para o caso
Autor: Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/09/2008, Nacional, p. A6

Agentes federais que conduzirão investigação foram transferidos para Brasília após saída de Lacerda da PF

Felipe Recondo e Marcelo de Moraes, BRASÍLIA

Para comandar as investigações sobre a existência de grampos telefônicos ilegais contra o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, a Polícia Federal escalou dois delegados transferidos para Brasília depois que Paulo Lacerda deixou a direção da PF. William Marcel Morad foi escolhido para presidir o inquérito; Rômulo Berredo, homem de confiança do diretor-geral da PF, Luiz Fernando Correa, coordenará as investigações.

Morad entrou na PF há cinco anos, já no governo Lula. Coordenou o Núcleo de Inteligência da polícia no Rio Grande do Norte e chefiou a Delegacia de repressão a Entorpecentes em Pernambuco. Foi trazido a Brasília por Rômulo Berredo, ex-chefe de gabinete de Corrêa, assim que Lacerda deixou a PF para comandar a Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Ontem, num gesto político, a cúpula da Polícia Federal foi ao gabinete do presidente do Supremo para apresentar os dois delegados e adiantar procedimentos que devem ser adotados no decorrer do inquérito. ¿Vim colocar à disposição a polícia e demonstrar que a PF está pronta e preparada para fazer uma investigação na medida do que a sociedade espera¿, afirmou Correa, ao deixar a reunião de quase uma hora com Gilmar Mendes.

Junto de Correa estavam o diretor-executivo da PF, Romero Menezes, o diretor de Combate ao Crime Organizado, Roberto Troncon, e o diretor de Inteligência, Daniel Lorenz. Na conversa, os delegados avisaram a Mendes que ele deverá ser ouvido, por ser o alvo de escutas ilegais, em data e local que escolher. Disseram que varreduras devem ser feitas no tribunal para a identificação de possíveis escutas telefônicas.

A escolha dos dois delegados que comandarão as investigações, ambos ligados a Correa, e o gesto político pouco usual de apresentá-los no início do inquérito mostram que o governo está disposto a tirar qualquer digital de Lacerda, recém-afastado da Abin, do comando das investigações.

A decisão atende às reclamações feitas pelos ministros do Supremo - Gilmar Mendes, Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso - em reunião com o presidente Lula, na segunda-feira. Na reunião, os ministros fizeram questão de apontar Lacerda como responsável por casos recorrentes de escutas e vazamentos em investigações para prejudicar o Judiciário.

SENADO

Ontem, o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), determinou uma varredura nas instalações da Casa para checar a hipótese aventada pelo ministro-chefe do Gabinete Institucional da Presidência da República, general Jorge Armando Félix, de que o grampo pode ter sido instalado no Congresso.

Senadores que tiveram espionadas suas conversas com o presidente do Supremo avaliam que o grampo não foi feito dentro do Congresso. Demóstenes Torres (DEM-GO), Álvaro Dias (PSDB-PR) e Tião Viana (PT-AC), que telefonaram para Mendes, acham que, pela complexidade do sistema telefônico usado pelo Senado, o mais provável é que a escuta tenha sido montada em algum aparelho utilizado pelo presidente do Supremo.