Título: Ex-agente do SNI substitui Lacerda à frente da Abin
Autor: Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/09/2008, Nacional, p. A6

Até então secretário da agência, Trezza ficou conhecido, recentemente, por se recusar a dar explicações sobre gastos com cartões corporativos

Vannildo Mendes, BRASÍLIA

Com mais de 20 anos de serviços no serviço de inteligência, Wilson Roberto Trezza, substituto do delegado Paulo Lacerda na direção-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin, é um dos poucos remanescentes do Serviço Nacional de Informações (SNI), largamente utilizado na repressão política a grupos de esquerda que se opunham ao regime militar (1964-1985). Dos 1.600 integrantes da Abin, pouco mais de 300 são egressos do SNI, extinto em 1990 pelo então presidente Fernando Collor.

Considerado um agente de gabinete, ou ¿maçaneta¿ no jargão da arapongagem, Trezza vinha ocupando a função de secretário de Planejamento, Orçamento e Administração da Abin desde que Lacerda tomou posse no cargo, há um ano.

Trezza ganhou notoriedade recentemente ao se recusar a dar explicações ao Congresso, ao Tribunal de Contas da União e até mesmo ao Planalto, sobre os gastos da Abin com cartões corporativos, que saltaram de R$ 5,5 milhões para R$ 11,5 milhões em 2007. ¿A natureza do serviço de inteligência é ser secreto¿, respondeu secamente.

A nomeação de Trezza como substituto de Lacerda foi publicada ontem no Diário Oficial da União. Ele responderá pelo órgão até o término das investigações sobre o grampo telefônico que atingiu o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, parlamentares e autoridades do próprio Poder Executivo.

Além de Lacerda, foram afastados os diretores José Milton Campana (Inteligência) e Paulo Maurício Pinto (Contra-Inteligência). Em solidariedade ao chefe que o levou, pediu desligamento também o assessor especial Renato da Porciúncula, que chefiava a poderosa Divisão de Inteligência Policial (DIP) da Polícia Federal, quando Lacerda dirigia o órgão até setembro de 2007. Mas todos eles ¿caíram para dentro¿, conforme explicou um alto dirigente do governo, porque vão despachar dentro do Palácio do Planalto.

O mesmo decreto que afastou os diretores da Abin determina que Lacerda, Campana e Pinto passam a responder ¿pelo expediente¿ no Gabinete de Segurança Institucional, ao qual a agência está subordinada. A convite de Lacerda, Porciúncula também deve se juntar ao grupo.

Os quatro ficarão despachando dentro do Palácio do Planalto, no Departamento de Assuntos Estratégicos do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), sob o comando direto do ministro Jorge Armando Felix. O departamento é encarregado de fazer análises de conjuntura política e econômica do País. Seu trabalho, atribuído a técnicos de elevado conhecimento, assessora a Presidência com informações estratégicas para tomada de decisões.

APURAÇÃO

A investigação deve durar 60 dias, mas Lacerda não deve voltar ao cargo, qualquer que seja o resultado. Aos companheiros de direção ele confidenciou que está mais interessado em provar a inocência do que em voltar para o cargo, embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha assegurado essa possibilidade. Ele se disse também muito desgastado com o que chama de perseguição sistemática do presidente do STF, que a seu ver teria juntado força com políticos de vários partidos, alcançados pelas investigações da PF na sua gestão, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, cuja posição dura demonstrada nessa crise o surpreendeu.