Título: Petrobrás ousa com etanol
Autor: Domingos, João
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/09/2008, Economia, p. B6
Estatal vai produzir e exportar energia a partir da cana em 2010
João Domingos
A primeira usina de produção de etanol a contar com a parceria da Petrobrás, num ousado plano de exportação do combustível e geração de energia a partir da cana-de-açúcar, deverá entrar em operação no início de 2010, no município de Itarumã, 400 quilômetros a sudoeste de Goiânia. A produção inicial prevista para essa usina é de 95 milhões de litros. A partir de 2014, na segunda fase, de 200 milhões de litros.
A Petrobrás informou, por intermédio de sua Assessoria de Imprensa, que a meta de exportação anual de álcool combustível pela estatal, já em 2012, é de 4,75 bilhões de litros. Para tanto, serão necessários investimentos superiores a U$ 1,5 bilhão em outros complexos industriais do setor de cana-de-açúcar no País. Com isso, a Petrobrás deverá entrar também para a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).
Para a produção do etanol, a Petrobrás Biocombustível criou um modelo de negócio baseado nos chamados Complexos Bioenergéticos (CBios), que buscam parcerias com empresas internacionais que garantam mercado mundo afora e produtores nacionais de cana-de-açúcar. Na associação com a brasileira Itarumã Participações, montada por um grupo de produtores de cana de Ribeirão Preto (SP), a Petrobrás formou uma joint venture com a japonesa Mitsui, chamada PCBios - cada uma das empresas tem 50% da sociedade. No empreendimento com a Itarumã, serão 40% da PCBios e 60% do grupo de produtores brasileiros. Em 2014, já em pleno funcionamento, a usina plantará 32 mil hectares de cana-de-açúcar, para chegar à produção de 200 milhões de litros anuais, informou Roberto Andrade, do conselho de administração da Itarumã.
A área onde será montada a usina está toda terraplenada, e parte da cana já foi plantada. Fica na Fazenda Queixada, a 56 quilômetros da sede do município de Itarumã. Como parte da cana já amadureceu , mas ainda não poderá ser industrializada, ela será vendida para usinas instaladas em Serranópolis, município vizinho.
No fim do ano que vem, a montagem da usina deve ter sido concluída, podendo, então, iniciar seus primeiros testes de produção do etanol, disse Andrade. Ao todo, o projeto da Itarumã custará U$ 227 milhões.
A usina não produzirá açúcar. Será totalmente voltada para o álcool combustível e para a geração de energia. Com o bagaço da cana e folhagem, terá condição de gerar 50 megawatts/hora. Desse total, usará 20 mw para girar todo o complexo industrial. Os 30 mw excedentes serão leiloados. A exportação de energia deverá começar em 2010. O plantio e a colheita da cana serão mecanizados, evitando as queimadas usadas para limpar as folhas quando a colheita é manual.
Ao todo, de acordo com informação de Andrade, 300 pessoas deverão trabalhar diretamente nas áreas industrial e administrativa da usina. Haverá outras 800 vagas para motoristas de caminhões e de tratores, equipes de combate a incêndios e vigias de doenças da cana, com a incumbência de percorrer os canaviais a pé, para procurar doenças e outros tipos de problemas.
Por enquanto, os técnicos que já trabalham na Usina de Itarumã vêm fazendo experimentos com mudas de cana de várias espécies, para identificar quais se adaptam melhor ao cerrado do Centro-Oeste, região com estações climáticas bem definidas: seca da segunda quinzena de abril a setembro e chuvas de outubro à primeira quinzena de abril. Neste momento, a energia está sendo produzida por geradores movidos a diesel. A administração do complexo, em Itarumã, por enquanto fica na velha sede da Fazenda Queixada. Estão prontos um alojamento e um refeitório que atendem até 200 pessoas.
De acordo com informações da Petrobrás, a estatal e a Mitsui decidiram investir no projeto de Itarumã por considerar que tem viabilidade ambiental e econômica diante do grande potencial de exportação de etanol brasileiro para atender às demandas internacionais por energia renovável e diversificação energética, o que possibilitará a redução das emissões de gás de efeito estufa.
A produção de Itarumã deve seguir em caminhões até Senador Canedo, a cerca de 350 quilômetros a nordeste, local de passagem de um alcoolduto que levará o etanol do Centro-Oeste para os portos do Sudeste, de onde seguirão para os mercados internacionais.