Título: Após Efavirenz, País fabricará mais 1 remédio antiaids
Autor: Formenti, Lígia
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/09/2008, Vida, p. A21

O próximo será o genérico do Tenofovir, que teve patente negada; Brasil estuda produzir um terceiro medicamento

Lígia Formenti

Embalado pelo sucesso na produção da versão genérica do anti-retroviral Efavirenz, conforme informou o Estado ontem, o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já iniciou os estudos para o preparo de outro remédio usado no programa antiaids: o Tenofovir. O diretor do instituto, Eduardo Costa, afirmou ontem ao Estado que está em fase de busca e negociação de fornecedores da matéria-prima para a produção do remédio, considerado estratégico pelo Programa Nacional de DST-Aids.

Além do Tenofovir, o governo avalia a possibilidade do desenvolvimento de uma nova versão de um terceiro medicamento também usado no programa, o Ritonavir. Nenhum desses dois candidatos à produção está protegido por patentes.

A produção do Efavirenz quebra um período de oito anos em que Farmanguinhos não incorporava drogas novas ao programa antiaids. ¿Não vamos nos contentar com Efavirenz. Outras drogas virão por aí¿, afirmou Costa. A versão genérica do Efavirenz também deverá ser produzida no Laboratório Farmacêutico de Pernambuco (Lafepe). O Lafepe ainda não obteve o resultado dos exames de bioequivalência, mas a coordenadora do Programa Nacional de DST-Aids, Mariangela Simão, garante que em breve a permissão para produção será dada. ¿Quando isso for feito, a expectativa é de que cada laboratório fique encarregado de 50% da produção.¿ O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, disse ontem esperar que, com a produção nacional do Efavirenz, a indústria farmacêutica internacional passe a considerar o Brasil não apenas como um consumidor: ¿Mostramos nossa capacidade. Esperamos que empresas passem também a produzir no Brasil.¿ Ele afirmou que não há, no momento, o estudo do pedido de licença compulsória de nenhum outro remédio. ¿A licença compulsória não é uma política. É um recurso que merece ser usado, mas apenas quando há necessidade para isso.¿

O Efavirenz foi o primeiro medicamento que teve a licença compulsória decretada no País. A produção genérica do remédio em laboratórios oficiais brasileiros era esperada por boa parte da comunidade internacional. Embora tenha ocorrido com meses de atraso, foi comemorada por entidades e especialistas em saúde pública.

¿É uma vitória importante, um marco. Mas é preciso lembrar que há ainda muito o que fazer para atualizar a produção¿, afirmou o pesquisador da Faculdade de Medicina da USP Alexandre Grangeiro.

O Tenofovir está há tempos na mira de Farmanguinhos. A patente do remédio, produzido pela Gilead, foi depositada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial em 1998, mas somente em abril o processo foi apressado. Em setembro, o INPI recusou a patente do remédio, hoje usado por 31,3 mil pessoas, ao custo de US$ 43 milhões.

SAIBA MAIS

Anti-retrovirais: são medicamentos que inibem a reprodução do HIV, vírus da aids, no sangue

O coquetel: 17 medicamentos de quatro classes diferentes são usados no tratamento. São necessárias, ao menos, duas drogas de classes diferentes

Benefícios: o coquetel retarda o desenvolvimento da aids e possibilita melhor qualidade de vida

Medicamentos mais caros: T-20 ou Enfuvirtida (US$ 17 mil por paciente/ano) e Darunavir (US$ 8,2 mil por paciente/ano)

Custo: O Ministério da Saúde gasta R$ 1 bilhão por ano com a compra de remédios do Programa Nacional de DST e Aids. A economia anual conseguida com a compra do genérico do Efavirenz, produzida na Índia, foi de US$ 30 milhões (cerca de R$ 54 milhões) por ano. O medicamento é usado por 80 mil pacientes

Novas apostas para produção nacional: Tenofovir (utilizado por 32 mil pacientes) e Ritonavir (que dispensa refrigeração)