Título: Remessa de dólares cresceu 44%
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/09/2008, Economia, p. B3
Crise acelerou envio de recursos de multinacionais americanas
Fernando Nakagawa
Multinacionais americanas instaladas no País têm enviado dólares às sedes como nunca visto. A crise imobiliária nos Estados Unidos acelerou a transferência de recursos e o volume cresceu 44% no acumulado em 12 meses até junho. Nesse período, US$ 9,5 bilhões trocaram o Brasil pela maior economia do mundo. Com tantas remessas, o País sobe no ranking dos que mais enviam receita às empresas nos EUA e já supera Japão, China, Rússia e Índia.
Levantamento do Escritório de Análises Econômicas do Departamento de Comércio dos EUA atualizado ontem revela que a transferência de receitas geradas pelos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) americanos no Brasil cresce em ritmo muito superior ao de outros mercados. Enquanto as remessas brasileiras saltaram quase 45%, o montante enviado pelo conjunto de todos os países à maior economia do mundo cresceu 15,5% no período.
O valor remetido atualmente pelo Brasil é mais de dez vezes superior ao de pouco mais de cinco anos atrás. Em 2002, US$ 880 milhões saíram do País e rumaram para os EUA.
Pelo critério adotado pelo Departamento de Comércio dos EUA, são contabilizados os lucros, dividendos, retorno de investimentos e algumas operações intercompanhias. Por isso, o valor é maior que o divulgado pelo Banco Central do Brasil, que só calcula lucro e dividendo.
Diante desse quadro, o Brasil é o 13º no ranking dos países que mais geram lucro aos investimentos americanos mundo afora. À frente do chamado Bric - grupo dos maiores emergentes, o País envia US$ 1 bilhão a mais que a China e três vezes mais que Índia e Rússia. Em 2004, o Brasil estava em 19º na lista. Desde então, ultrapassou o gigante asiático e países como a França e Espanha.
As transferências ganharam muita força desde o ano passado, com o início da crise no mercado de hipotecas americano em agosto. Com a desaceleração econômica, empresas têm enfrentado dificuldades - principalmente na construção civil e setores bancário e automobilístico - e, por isso, aumentam a exigência de recursos das subsidiárias que dão lucro, como as brasileiras.
Ao mesmo tempo, as empresas que operam no Brasil têm conseguido bons resultados. Em meio ao aumento da renda e boom do crédito, a economia nacional tem alcançado recordes em vários indicadores, como na produção de veículos, concessão de crédito e venda de imóveis. Isso tem elevado a rentabilidade das companhias.
¿Para uma empresa dos EUA, o início da crise pode ter feito com que decidissem antecipar a remessa de lucros ante da perspectiva de queda da atividade econômica. No caso do Brasil, o quadro foi potencializado com os bons lucros e o câmbio favorável¿, diz a professora da Unicamp Daniela Prates. ¿Os dados surpreendem e mostram o papel cada vez mais importante do Brasil¿, completa o presidente da Sociedade Brasileira de Empresas Transnacionais (Sobeet), Luís Afonso Lima.
Os dois especialistas ficaram surpresos com a posição brasileira à frente da China. Para Daniela, o fato pode estar relacionado diretamente ao aquecimento da economia nacional nos últimos trimestres. ¿Com o Brasil crescendo mais forte, os lucros aparecem. Na China, a economia tem um ritmo mais forte, mas de forma estável há algum tempo.¿ Para Afonso Lima, o real valorizado pode ter tido papel fundamental na disparada das remessas.
Mesmo com a desvalorização da moeda brasileira nas últimas semanas, Afonso Lima mantém a aposta de que as remessas para os EUA devem continuar recordes. ¿Tirando o câmbio, as outras variáveis continuam favorecendo as remessas, como o grande estoque de investimentos, crescimento forte da economia brasileira e atividade em queda nos EUA.¿
Já para a professora da Unicamp, as transferências devem recuar a médio prazo. Para ela, a expectativa de desaceleração da atividade econômica no Brasil vai reduzir o lucro das empresas e, ao mesmo tempo, a desvalorização do real vai tornar as remessas menos vantajosas.