Título: PSDB mimetiza cada vez mais sua origem, o PMDB
Autor: Samarco, Christiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/09/2008, Nacional, p. A5

Legenda tem traços da `confederação de interesses regionais¿ que tucanos renegaram há duas décadas

Christiane Samarco

Criatura do PMDB, o PSDB cada vez mais mimetiza o partido que lhe deu origem. Fundado por dissidentes peemedebistas em meio à efervescência política da Assembléia Nacional Constituinte, em 1988, o PSDB apresenta hoje os mesmos traços de ¿confederação de interesses regionais¿ que os tucanos renegaram no PMDB duas décadas atrás. Chefes políticos do PSDB agem em dissintonia com o comando nacional.

¿O PSDB girou, girou e, hoje, nada mais é do que um PMDB de menor tamanho¿, avalia o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP). ¿O partido virou uma confraria¿, lamenta Madeira, ao analisar o quadro geral a partir da briga pela Prefeitura de São Paulo, onde a divisão entre os partidários do candidato Geraldo Alckmin (PSDB) e da reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) ameaça ganhar dimensão nacional.

Quem, como o líder no Senado Arthur Virgílio Neto (AM), rejeita a comparação com o PMDB se apóia na tese de que o partido não apenas tem o projeto de retomar o poder central, como candidatos fortes para disputar a sucessão presidencial. O foco no interesse nacional, como diz Virgílio, não é suficiente para cimentar o partido, coalhado de líderes regionais que medem forças com a cúpula nacional. ¿Ninguém manda em ninguém. O partido tem que conversar.¿

¿O PSDB tem que, rapidamente, fazer uma reflexão e dela decorrer uma ação no sentido de que, sem unidade, não vamos muito longe¿, propõe o líder do partido na Câmara, José Aníbal (SP), para quem o ¿caso típico¿ é mesmo São Paulo. Já preocupado em administrar o racha no segundo turno da eleição na capital, admite que, ¿infelizmente, as disputas internas não têm resultado em unidade no momento seguinte¿. Foi assim nas eleições presidenciais com José Serra (2002) e Geraldo Alckmin (2006), e agora a situação se repete na briga pela prefeitura mais importante do País.

A partir da bem-sucedida operação política para evitar disputa na convenção tucana em que Alckmin saiu candidato a prefeito, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), transferiu ao candidato a tarefa de unir o partido. Desde então, evita interferir na seção paulista, até para não ¿exportar o racha¿ para o cenário nacional, em que dois pré-candidatos a presidente - os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) - travam uma guerra de bastidor.

Tanto Madeira quanto Aníbal admitem que o projeto nacional não tem comandado as decisões. ¿Essa divisão é uma vergonha e dificulta ainda mais a construção do projeto nacional. O bom seria que estivéssemos todos juntos¿, diz Aníbal. ¿Regredir seria lamentável. Voltaríamos à condição de federação de forças regionais que renegamos para construir um partido com projeto nacional e que teve sucesso.¿

Em conversas reservadas, Guerra reconhece que a grande dificuldade é ¿equilibrar¿ os projetos pessoais dos líderes tucanos Brasil afora. Mas lembra que o PSDB tem se mostrado unido no Congresso.

CACIQUES

Amazonas Senador Arthur Virgílio

Além de comandar a bancada do Senado há seis anos, o Diretório Estadual e as alianças locais, ele se lança como candidato a presidente sem chance de vitória e sem consultar o partido

Ceará Senador Tasso Jereissati

Adota critério pessoal na definição de alianças e no apoio a candidatos. Já votou contra José Serra na disputa presidencial e contra a reeleição do governador tucano Lúcio Alcântara no Estado

Paraíba Governador Cássio Cunha Lima

Governa o Estado e o PSDB local com autonomia para elogiar o presidente Lula e defender interesses do Planalto, como a CPMF

Pernambuco Senador Sérgio Guerra

Preside o PSDB nacional com o apoio de tucanos de todas as alas, mas, no Estado, opera com o governador Eduardo Campos (PSB), ex-ministro de Estado e aliado de Lula

Bahia Deputado Jutahy Júnior

Aliado do governador Jaques Wagner e do PT baiano, monta as alianças com base na política local, ignorando a coligação nacional. Votou em Lula para presidente, contra FHC

Goiás Senador Marconi Perillo

Conduz a regional do partido com punhos fortes e foca em voltar ao governo estadual, razão pela qual preferiu eleger sucessor do PP a abrir espaço à candidatura da senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO)

Minas Gerais Governador Aécio Neves

Com gestão aprovada por 96% dos mineiros, Aécio contraria direção nacional, que faz oposição ao governo Lula, e marca seu nome como opção em 2010 aliando-se ao PT e ao PSB em Belo Horizonte

Paraná Governador Beto Richa

Herdeiro político de José Richa, é hoje o melhor prefeito do Brasil: levantamento do Datafolha aponta apoio de 74% à sua reeleição

São Paulo Governador José Serra

Centralizador, conta com políticos e colaboradores leais que ultrapassa limites do Estado. Serristas comandam PSDB paulista e têm peso nacional para favorecer o projeto de poder de Serra em 2010

Rio Grande do Sul Governadora Yeda Crusius

Apesar das dificuldades políticas e econômicas no Estado, teve força para levar bancada tucana a afrouxar as restrições da LRF, bandeira do partido e marca do governo FHC, para obter crédito externo