Título: Para Franco, momento lembra crise bancária brasileira
Autor: Lacerda, Angela
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/09/2008, Economia, p. B12
Ex-presidente do Banco Central, acredita ainda que haverá mais fusões e intervenções
Adriana Chiarini
O sócio da Rio Bravo e ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, comparou, em teleconferência com clientes de sua empresa, a crise financeira nos Estados Unidos à crise bancária brasileira ocorrida entre 1994 e 1997. Deu a entender que vai demorar e que ainda haverá muitas fusões, aquisições e intervenções envolvendo instituições financeiras.
Na crise brasileira dos anos 90, havia 270 bancos no início, 48 passaram por alguma mudança de controle e 43 tiveram algum regime especial de intervenção ou liquidação decretado pelo Banco Central (BC).
Para ele, na situação atual, o episódio em que o Bear Sterns foi comprado pelo JP Morgan ¿deu início à fase aberta ou fase sistêmica da crise¿.
Até agora, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e o Tesouro dos Estados Unidos já fizeram cinco tipos de intervenção, segundo Franco: uma no Bear Sterns, outra nas agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac (contadas juntas), uma terceira no Lehman Brothers, de outro tipo na Merryl Linch e a quinta na seguradora AIG. ¿O enriquecimento do cardápio é evidente.¿
Segundo Franco, o enfrentamento da crise é para o Fed, como foi para o BC nos anos 90, como ¿um campeonato longo¿ em que os adversários não são bem conhecidos e ¿os primeiros jogos são sempre os mais difíceis¿, até mesmo porque os instrumentos a serem usados ainda não estão desenvolvidos.
Uma das maiores diferenças entre as duas situações, de acordo com Franco, é que agora nos Estados Unidos ¿há muito capital por aí para comprar ativos bons e de longa duração¿. Para ele, ¿lá tem muito dinheiro e é uma questão de segregar bem a qualidade dos ativos¿.
Outra diferença é que o economista argumenta que a crise americana foi causada no sistema financeiro não bancário, que não era tão regulado quanto o sistema bancário. Segundo Franco, ¿a crise bancária (americana), até agora, no fundo, não foi bancária.¿
Bear Sterns, Merril Lynch, Lehman Brothers, chamadas no Brasil de bancos de investimento, ¿são corretoras, não bancos¿ e não estavam sob a regulação bancária. Da mesma forma, seguradoras, como a AIG, as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, assim como fundos e outros tipos de instituições que não recebem depósitos à vista nem dão crédito na forma de empréstimo bancário estavam fora da abrangência da regulação bancária.
¿Vamos assistir a formas criativas de incorporação de instituições do sistema financeiro não bancárias para dentro dos bancos com o intuito de trazer para o mesmo guarda-chuva regulatório essa turma tão criativa¿, prevê Franco;
Ele considerou que a idéia do governo americano de criar um ¿mecanismo que vai comprar créditos podres¿ do sistema financeiro ¿já é uma notícia muito boa¿. No entanto, fez uma série de ressalvas sobre pontos não resolvidos e comentou que os Estados Unidos não têm um instrumento como a medida provisória que dê rapidez ao processo. ¿Tem que fazer um esforço legislativo maior¿, diz Franco, destacando que a rapidez é necessária em uma crise.