Título: Após a viagem, o susto da fatura em dólar
Autor: Otta, Lu Aiko
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2008, Economia, p. B6
Valorização preocupa consumidor
Quem usou o cartão de crédito no exterior está preocupado. Depois que a cotação do dólar passou a barreira dos R$ 2, na quinta-feira, o temor dos consumidores é que a fatura venha mais cara. Isso porque a conversão da moeda americana para o real é feita no dia do vencimento da fatura. ¿A gente não sabe qual vai ser o rumo do dólar neste mês¿, diz o diretor de Economia, Banking e Finanças da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Andrew Franck Storfer.
O artista plástico André Firminano, de 24 anos, passou as duas últimas semanas de setembro nos Estados Unidos. Viajou com outros dois artistas para expor pinturas em Los Angeles, na Califórnia. E aproveitou a viagem para fazer compras. ¿Consegui um skate por uma pechincha, US$ 40¿, conta. Sempre que pôde, evitou usar o cartão de crédito. O dólar já estava em alta quando partiu, em 19 de setembro. Era cotado em R$ 1,93.
Mesmo com o controle de gastos, comprou US$ 400 em roupas no cartão. Agora teme que a conta venha maior do que calculava. ¿Espero que o dólar volte a cair antes do dia 20, quando vence a minha fatura¿, diz Firmiano. Ele percebeu a rápida valorização do dólar quando comprou a passagem de volta. Antes de partir, o pacote de ida para os três artistas plásticos foi orçado em R$ 6.200. ¿Deixamos para comprar a passagem na última hora e o custo do pacote subiu R$ 1 mil¿, afirma o artista plástico.
O impacto na fatura do cartão é maior para quem fez a compra diretamente em dólares, segundo Storfer. Mas o consumidor não está livre de sair prejudicado nem nos países cujas moedas perderam valor ante o dólar. ¿A instabilidade não é boa para ninguém e com certeza quem comprou no cartão de crédito terá uma surpresa negativa na hora de pagar a fatura¿, diz Storfer.
O empresário Francisco Vitelli sentiu a rápida valorização do dólar durante os cinco dias em que esteve na Argentina com a mulher. ¿Quando cheguei a Buenos Aires, na segunda-feira, o dólar estava em 3 pesos. Antes de voltar já estava em 3,20.¿ Durante a viagem, gastou US$ 500 em produtos de perfumaria e roupas no cartão de crédito. Agora, espera que o real se valorize antes do vencimento da fatura, em 1º de novembro. ¿Eu torço para que o dólar caia, mas não acredito que isso vá acontecer¿, diz o empresário. A mulher dele, Edna Vitelli, continua em Buenos Aires com o cartão de crédito. ¿O cartão está mais seguro com ela porque o gastador da família sou eu.¿
O gerente de projetos André Luis Caxito, de 42 anos, apostou na queda do dólar. Durante a semana que passou na Bolívia a negócios, ele gastou US$ 300 no cartão de crédito, propositalmente. ¿Eu tinha a opção de pagar na cotação do momento, mas estou na esperança que o dólar volte ao normal.¿
O conselho do diretor da Anefac é que o consumidor pague a conta, mesmo que pese no bolso. ¿Uma vez convertida, a fatura vai ser cobrada em real e, se atrasar, o consumidor vai pagar os juros do crédito rotativo brasileiro, que está entre os mais altos do mundo¿, explica.