Título: Governo tenta preservar crescimento em 2009 e 2010
Autor: Otta, Lu Aiko
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2008, Economia, p. B6

Preservar tanto quanto possível o crescimento econômico de 2009 - e principalmente o de 2010, ano de eleições - passou a ser a prioridade da equipe de governo, diante do agravamento da crise financeira internacional. Já está claro que os 5% de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) estabelecidos como meta no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não serão cumpridos. Agora, a prioridade é tentar chegar o mais próximo possível dos 4,5% projetados no Orçamento do ano que vem, embora se reconheça que essa é uma missão difícil.

¿Se ficássemos com os braços cruzados, não tomássemos nenhuma atitude dentro da crise, se deixássemos passar todos os problemas, aí a economia poderia crescer 2,5% a 3%¿, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega. ¿Mas o governo não está de braços cruzados.¿ Dependendo do comportamento da economia após a aprovação do pacote de ajuda aos bancos pelo Congresso dos Estados Unidos, novas medidas poderão ser tomadas pelo governo. Os exportadores, que enfrentam falta de crédito para a produção, poderão ser atendidos com dinheiro das reservas internacionais, informou Mantega. Outras medidas 'criativas' para ajudar os exportadores foram encomendadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge.

O governo também está fazendo caixa para enfrentar o ano de 2009, um período de atividade mais morna e, conseqüentemente, de menor arrecadação tributária. A idéia é economizar R$ 14,2 bilhões acima da meta estipulada este ano, para que as despesas do governo federal não tenham de sofrer cortes drásticos no ano que vem. É a velha lógica de poupar em tempos de bonança para enfrentar tempos bicudos, chamada pelos economistas de mecanismo anticíclico.

O dinheiro vem sendo economizado para compor o chamado Fundo Soberano, cuja criação está em exame no Congresso Nacional. O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, enfatizou o caráter anticíclico do Fundo na semana passada, quando divulgou o resultado das contas federais. Essa estratégia ajudará a manter os investimentos do PAC, considerados uma prioridade pelo presidente Lula.

Um sinal importante aos agentes econômicos virá da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para o fim deste mês. Ela vai definir a nova taxa básica de juros. Cresce no governo e no mercado o grupo dos que defendem a interrupção da trajetória de alta, iniciada em abril deste ano. Há quem avalie, nos bastidores, que elevar os juros seria contraditório com todo o esforço do governo no sentido de manter abertos os canais de crédito. É como se o governo estivesse injetando e retirando dinheiro em circulação ao mesmo tempo. Quem defende menos juros acha também que a desaceleração econômica a ser provocada pela crise será suficiente para manter a inflação sob controle.

No entanto, não necessariamente os diretores do Banco Central, que formam o Copom, pensam da mesma forma. Mesmo após a piora da crise eles se mostraram preocupados com o excessivo nível do consumo no mercado interno como combustível para a inflação. Desde o agravamento da crise, há uma semana, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, vêm tendo opiniões coincidentes sobre o que fazer, segundo relatou um assessor. O Copom será um teste para essa recém-encontrada harmonia.