Título: Crise ronda a construção civil
Autor: Barbosa, Mariana
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2008, Economia, p. B10

A crise financeira internacional está castigando quem é mais sensível ao crédito - e o primeiro setor atingido é o da construção civil. Das 21 construtoras e incorporadoras que abriram capital na Bovespa entre 2006 e 2007, oito estão na lista das 30 maiores quedas da bolsa paulista, segundo a consultoria Economatica.

A crise pegou o setor no momento mais crítico do ciclo produtivo, que é a fase das obras, quando se gasta muito e se aufere pouco lucro. Os R$ 16,2 bilhões que as construtoras levantaram na Bolsa entre 2006 e 2007, com ofertas primárias e secundárias de ações, foram gastos com a compra de imóveis - e as empresas contavam com a perspectiva de novas captações para a fase das obras. ¿Mais de 70% dos investidores em empresas de construção eram estrangeiros, e eles estão indo embora¿, afirma Conrado Vegner, analista imobiliário da Raymond James. ¿Com o ambiente de crédito mais restrito, muita gente está revendo projeções de lançamento¿.

Para o diretor da administradora de recursos imobiliários Brazilian Mortgages, Vitor Bidetti, a crise vai ajudar a ajustar a oferta, que estava mais aquecida do que a demanda. ¿A oferta vinha crescendo em um ritmo desproporcional à demanda, mas nada muito preocupante pois não era um problema estrutural do setor.¿

Em tempos de crédito escasso, restam às empresas três alternativas para se capitalizar e tocar as obras: vender terrenos e outros ativos, reduzir lançamentos ou buscar novos parceiros. A Inpar conseguiu levantar R$ 400 milhões com a venda de ativos e criação de associações de capital em projetos específicos. A empresa revisou a previsão de lançamentos para este ano, de R$ 2,5 bilhões para R$ 1,65 bilhão. A incorporadora CR2 reduziu a menos da metade os lançamentos previstos para até o final do ano, de R$ 1,2 bilhão para R$ 500 milhões, enquanto a Even reduziu seus lançamentos de R$ 2,2 bilhões para R$ 1,8 bilhão.

Quem não consegue se capitalizar, está sendo vendido. Desde junho, foram três aquisições: Cyrela comprou a Agra, Gafisa a Tenda e a Brascan adquiriu a Company.

¿Acredito que as pequenas estão percebendo o ambiente para o crédito mais caro e restrito¿, afirma Vergner. ¿Aparentemente o mercado está bom e empresas, como Gafisa, MRV e Rodobens estão em situação confortável¿.

A escassez do crédito trouxe de volta a permuta, que durante muitas décadas foi um importante meio de financiamento. Com o boom do mercado acionário, as construtoras tinham abandonado a velha prática e passado a pagar à vista pelos terrenos. ¿Hoje ninguém mais compra terreno e vemos a volta da permuta¿, diz Luiz Paulo Pompéia, diretor da consultoria Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio). Na base da permuta, as empresas pagam de 20% a 30% do valor do terreno e o restante quitam com uma parte do empreendimento. Na avaliação de Pompéia, a escassez de crédito que afeta as companhias listadas na Bolsa atinge em menos grau as construtoras menores. ¿Ainda tem empresa conseguindo financiamento garantido com o patrimônio¿, diz ele.

CRÉDITO IMOBILIÁRIO

Um dos pilares que mantém o setor de pé e afasta o risco de falências é a demanda aquecida. ¿Todas as linhas de crédito para o setor de construção civil secaram, menos a do financiamento do imóvel¿, diz a economista da Tendências Consultoria, Amaryllis Romano.

Segundo o diretor da Brazilian Mortgages, as condições e prazos para o financiamento seguem inalterados: ¿O mercado pratica as mesmas taxas e isso não deve mudar¿, afirma. ¿A qualidade do crédito imobiliário no Brasil é boa e os bancos são conservadores, só financiam quem tem bom histórico de crédito.¿

No mês de agosto, o País registrou recorde na liberação de recursos para o financiamento imobiliário: R$ 3,49 bilhões, crescimento de 94,6% sobre agosto do ano passado. ¿O cenário está ficando incerto, e este é um setor que depende da confiança¿, diz Amaryllis que ainda projeta crescimento de 74% dos financiamentos para 2009.