Título: Crise obriga BC a aumentar operações de curto prazo
Autor: Verissimo, Renata; Graner, Fabio
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2008, Economia, p. B6
As dificuldades de liquidez provocadas pela crise internacional agravaram um problema que é considerado ¿tabu¿ não só dentro do governo, como também no mercado financeiro: o grande volume de operações no chamado mercado aberto de curtíssimo prazo que o Banco Central (BC) tem de fazer para enxugar a liquidez.
Se por um lado o BC foi obrigado a dar liquidez ao mercado, liberando os compulsórios e fazendo leilões de dólar, por outro, faz diariamente o movimento contrário para ¿enxugar¿ o excesso de dinheiro na economia, uma forma de manter a taxa básica de juros, a Selic, na meta definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para controlar a inflação.
Esses movimentos aparentemente contraditórios têm sido questionados, principalmente após o aumento da aversão ao risco e das incertezas em relação aos rumos da economia no mundo e no Brasil. Os bancos não direcionam os recursos para o mercado e preferem aplicar o excesso de dinheiro em caixa no ¿porto seguro¿ das operações de mercado aberto, o que produz o fenômeno conhecimento como ¿empoçamento¿ de liquidez. Essa ação do BC é prática entre todos os Bancos Centrais mundiais, inclusive nesse momento de turbulência financeira.
Para administrar o excesso de liquidez do mercado, o BC retira de circulação esses recursos com operações de curtíssimo prazo e remunera as instituições com base na Selic. A remuneração elevada que o BC oferece ao dinheiro que sobra no fim do dia no caixa dos bancos torna também mais difícil o trabalho do Tesouro Nacional de refinanciamento da dívida pública. Os investidores preferem as operações compromissadas feitas com títulos de curto prazo em vez de comprar os papéis com vencimentos mais longos vendidos nos leilões semanais do Tesouro Nacional. Em momentos de turbulência, a ¿concorrência¿ do mercado aberto para o Tesouro aumenta.
O saldo das operações de mercado aberto até agosto (o último dado disponível), foi de R$ 278 bilhões, acima da média histórica e da posição de dezembro de 2007, que era de R$ 165,8 bilhões. As operações de mercado aberto tiveram forte alta a partir de julho, quando chegaram a R$ 299,78 bilhões - sendo R$ 222,79 bilhões com mais de um mês e R$ 76,99 bilhões com menos de um mês. E o volume deve se expandir com a liberação dos compulsórios.
¿O crédito está ficando mais seletivo e essas operações têm remuneração garantida e alta¿, destaca o ex-diretor do Banco Central e presidente da Confederação Nacional de Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas. Segundo ele, enquanto as taxas de juros continuarem elevadas, dificilmente haverá uma mudança de tendência. ¿Ninguém quer abrir mão da liquidez nesse momento¿, disse o economista de um grande banco. Segundo ele, outro fator que tem contribuído para o aumento dessas operações é a oportunidade de compras de ativos por preços vantajosos que surgem com a crise. ¿Surgiram ativos bastante atrativos com preços convidativos¿, disse.
Desde 2006, quando o BC intensificou as compras de dólares para reforçar reservas, as operações de mercado aberto vêm se expandindo. O volume aumentou este ano, com as dificuldades do Tesouro para vender os seus papéis devido às turbulências a partir de março.