Título: Governo estuda financiar exportação com reservas
Autor: Verissimo, Renata; Graner, Fabio
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2008, Economia, p. B6

O governo estuda a utilização de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões das reservas internacionais em linhas de crédito no exterior para financiar exportadores brasileiros. Segundo fontes do governo, a idéia inicial é que parte das reservas seja depositada no Banco do Brasil no exterior. Outra opção, com efeito semelhante, é usar os dólares para adquirir títulos do BB ou, ainda, fazer operações compromissadas lá fora com a instituição.

Embora o governo pense inicialmente em fazer esse tipo de operação com o BB, não está descartada a participação de grandes bancos nacionais privados, desde que se comprometam a financiar operações de comércio exterior.

A idéia faz parte do arsenal de alternativas mapeadas pela equipe econômica para enfrentar o impacto da crise internacional. Elas foram apresentadas nesta semana ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo as fontes, porém, nenhuma medida será adotada antes de uma semana ou dez dias. Esse é o tempo que o governo considera necessário para esperar os efeitos das medidas já tomadas e sentir a reação do mercado à aprovação do pacote de ajuda do governo dos Estados Unidos ao sistema financeiro.

As propostas em estudo têm o apoio dos Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), mas ainda não agradam ao Banco Central (BC), que considera as medidas adotadas até agora suficientes para garantir o bom funcionamento do mercado financeiro nesse período de alta volatilidade.

A Fazenda e o MDIC esperam que, além do uso das reservas, o BC faça leilões de linhas de dólares, dentro do Brasil, vinculados diretamente a operações com exportadores. Essa alternativa teria menor rejeição por parte do BC, pois já foi utilizada em 2002 pela autoridade monetária.

Uma nova rodada de redução dos depósitos compulsórios dos bancos também continua no radar do governo. Segundo uma fonte envolvida nas discussões, além das duas flexibilizações já realizadas pelo BC, outra, próxima de R$ 5 bilhões, poderá ser feita neste mês para não pôr em risco a safra agrícola, que será plantada de outubro a dezembro.

Essa flexibilização duraria até julho de 2009. O problema de reduzir mais uma vez os compulsórios reside em um possível impacto sobre a inflação. Nesse sentido, o governo considera a hipótese de usar recursos orçamentários para abastecer o setor agrícola e não deixar que a safra fique prejudicada.

Também está sendo aventada a possibilidade de o Tesouro Nacional ser garantidor das captações dos bancos brasileiros no exterior, segundo informou uma das fontes que participam das discussões. Segundo os estudos, poderiam ser destinados até US$ 5 bilhões como garantia. Mas o Tesouro rejeita a proposta e, por isso, tem poucas chances de ser adotada.

No leque de opções ainda está a possibilidade de flexibilizar as regras do Programa de Financiamento das Exportações (Proex). Uma fonte explicou que o Banco do Brasil - que administra o programa - ainda tem recursos para este ano que ainda não foram emprestados. O governo estuda formas de ampliar as empresas aptas a receber os recursos.

A equipe econômica também se debruça em avaliações sobre como se pode estimular o mercado de financiamento das exportações em reais. A visão é que, apesar da existência de linhas desse tipo no mercado, seu uso ainda é muito restrito. Mas, em um momento de escassez de divisas estrangeiras, esse segmento poderia ajudar a manter o dinamismo do setor.