Título: Não devemos importar a crise
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2008, Economia, p. B7

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, declarou ontem que os problemas da turbulência financeira internacional ¿são somente externos¿. ¿Não devemos, psicologicamente, importar a crise¿, disse. Ele esteve em Buenos Aires para participar da cerimônia de lançamento do comércio ¿desdolarizado¿ entre o Brasil e a Argentina.

Segundo Meirelles, o Banco Central está sensível aos acontecimentos decorrentes da crise e tomará qualquer medida necessária. ¿As medidas que foram anunciadas até agora são aquelas que julgamos suficientes no momento. Outras medidas poderão ser tomadas, no futuro¿, disse. ¿Mas não por reação psicológica em função da ansiedade em outros mercados.¿ Ele alega que a economia brasileira está sólida e não há razão para precipitações. Na avaliação do presidente do BC, as incertezas nos EUA tornam os mercados voláteis e a situação arriscada. ¿Temos que aguardar com serenidade¿.

Meirelles tomou o café da manhã com nove industriais brasileiros na Embaixada do Brasil em Buenos Aires e preferiu não comentar sobre a taxas de juros brasileira: ¿Não fazemos previsões de decisões futuras do BC e muito menos de política monetária¿. A próxima reunião do Comitê de Política Monetária que decidirá a nova taxa deve ocorrer daqui a um mês. ¿Um mês é uma eternidade na economia mundial.¿

Pelos relatos ouvidos dos empresários, o presidente do BC avalia que a situção da economia brasileira ¿é boa¿. ¿Muitas companhias tiveram o melhor setembro da História recente. O mercado interno vai bem, as vendas em conseqüência também, a massa salarial continua crescendo.¿

Meirelles afirmou que o cenário brasileiro é diferente do externo porque no Brasil não há queda na economia real, como nos EUA. Ele disse ainda que as perdas de empresas brasileiras no mercado financeiro não levam a risco de solvência das instituições. ¿O que aconteceu no Brasil, nas últimas duas semanas, é uma questão muito simples. Os bancos internacionais colocaram restrições de liquidez, o que levou à uma restrição na alocação de linhas de crédito, inclusive no Brasil.¿

EMPRESÁRIOS

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, afirmou ontem que seria ¿ridículo¿ se na próxima reunião o Copom não reduzir os juros. ¿Medidas que ajudem preservar o crescimento serão bem-vindas neste momento, para que em 2009 não ocorram problemas sérios.¿

Segundo Skaf, ¿o Brasil não é uma ilha. Pode ser até o momento. Mas tende a haver contaminação. Temos que ficar atentos e serenos¿.

BANCOS MÉDIOS

Meirelles também afirmou que a decisão tomada na quinta-feira à noite, de ajustar as regras dos depósitos compulsórios, para a compra de carteiras ¿é uma medida complementar¿. Segundo ele, o objetivo é redirecionar recursos para os bancos médios e pequenos, já que uma boa parte da captação do segmento se dá no mercado de atacado. ¿O movimento do Banco Central de liberação de compulsório para aplicação na compra de carteiras de bancos médios é um movimento dimensionado, que tem todas as condições para tranqüilizar os mercados.¿

Segundo ele, as carteiras desses bancos são boas e têm condições de serem comercializadas. ¿Era a medida mais adequada a ser tomada neste momento para a manutenção das condições de bom funcionamento dos mercados¿, argumentou o presidente do BC.

Perguntado se a medida poderia gerar interpretações de que existem bancos médios e pequenos que estão em situação de risco no Brasil, Meirelles disse que ¿a mensagem é que o Banco Central está preparado e vai tomar as medidas necessárias¿.