Título: Como avaliar os super-ricos
Autor: Chiarini, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2008, Economia, p. B12

Os americanos, como os acontecimentos em curso na economia nos fazem lembrar, têm duas atitudes diante da montoeira de dinheiro de outras pessoas. Nós podemos ficar ultrajados com as fortunas enormes produzidas em Wall Street. Ao mesmo tempo, podemos venerar outros tipos de fortunas - os do Vale do Silício, por exemplo.

É quase como se existissem bilionários ¿bons¿ e bilionários ¿maus¿ na consciência pública. Quando os super-ricos são amados e admirados, ou, talvez, desamados mas respeitados, isso acontece porque as pessoas podem realmente ver e desfrutar dos frutos de seus esforços.

Donald Trump constrói torres de escritórios e coloca seu nome nelas. Steven Spielberg faz filmes com lindos efeitos especiais. Martha Stewart decora nossas vidas e casas. Tiger Woods, no rumo de se tornar o primeiro bilionário dos esportes, acerta uma bola de golfe realmente, mas realmente, muito bem.

Os bilionários não tão admirados, particularmente os feiticeiros de Wall Street, operam nas sombras do capitalismo. Nós não sabemos, de verdade, como eles estão ganhando todo aquele dinheiro. Mas suspeitamos que pelo menos um pouquinho dele era nosso.

Em Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe, o banqueiro de investimento Sherman McCoy tenta explicar seu trabalho em Wall Street à filha. Sua esposa se intromete: ¿Querida¿, disse Judy, ¿o papai não constrói estradas ou hospitais, ele não ajuda as pessoas a construí-los, mas entrega os bônus para as pessoas que levantam o dinheiro.¿ ¿Bônus?¿ ¿Isso. Imagine que um bônus é uma fatia de bolo, e você não assou o bolo, mas toda vez que você entrega a alguém uma fatia do bolo um minúsculo pedacinho se solta, como uma pequena migalha, e você pode ficar com isso.¿ Sherman não se satisfaz com migalhas, mas imagine-se procurando uma maneira de descrever swaps de default de crédito para uma criança.

Os super-ricos do setor de alta tecnologia, por sua vez, criam coisas tangíveis para facilitar nossas vidas, e isso nós podemos respeitar. Steve Jobs nos deu o onipresente iPod. Larry Page e Sergey Brin, os rapazes do Google, criaram uma maneira melhor de fazer buscas na internet. Jeff Bezos deu às pessoas uma maneira de comprar pijamas. Bill Gates faz o software para os computadores que a maioria das pessoas usa todos os dias.

Claro, um segmento da população, particularmente aqueles cujos computadores empacaram na semana passada, tem sentimentos complexos sobre Gates e sua turma. Alguns poderiam argumentar que sua fortuna faraônica é inflada por bolhas no mercado acionário, mas poucos os recriminariam por suas recompensas financeiras.

Ao contrário, o público parece se indignar com os figurões de Wall Street porque eles não parecem ter inventado nada - a menos que se contem aí maneiras engenhosas de ganhar mais dinheiro. Derivativos de opções são tão inexplicáveis para o público em geral quando a física das partículas. Richard Fuld do Lehman Brothers, Alan Schwartz do Bear Stearns, e Robert Willumstad do AIG poderiam ter históricos fantásticos de inovação. Se tiveram, ninguém nos contou.

Tendemos a gostar mais de nossos bilionários quando ficamos sabendo mais sobre eles. Captando isso, talvez, as empresas de tecnologia promovem ativamente seus fundadores ¿zilionários¿ e suas histórias de sucesso dos farrapos à fortuna, às vezes colocando-os canhestramente até em comerciais de televisão (Gates, Michael Dell e Charles Schwab). O Yahoo, o assediado gigante de busca na internet, está enfiando seu co-fundador e presidente-executivo, Kerry Yang, em vídeos promocionais em qualquer oportunidade.

Os ricos impopulares, por sua vez, são os que permanecem em grande parte anônimos - até entrarem intempestivamente em cena numa detenção espalhafatosa (L. Dennis Kozlowski ou Ken Lay) ou são garroteados pela imprensa por suas remunerações absurdas (Robert Nardelli, da Home Depot; Dick Grasso, da Bolsa de Nova York).

Depois, há todos aqueles contrastes visuais aos quais reagimos visceralmente. Vemos os banqueiros de Wall Street usando gravatas e ternos impecáveis, enquanto associamos os executivos de tecnologia com roupas caqui e suéteres de gola rolê. Imaginamos os rapazes das finanças rodando em limusines, e o pessoal do high tech em Segways e Prius.

O Vale, é claro, se esmerou na sua imagem. Mas o alto escalão da região tende a acreditar no próprio estilo. Os empresários, eles pregam, só deveriam ser recompensados pelo que eles criam. A riqueza está estreitamente ligada ao sucesso: fundadores e executivos recebem capital em suas companhias e restringem os salários anuais.

¿Se você for bem-sucedido, você vence; se perder, vai embora sem nada¿, disse Mitchell Kertzman, um sócio da Hummer Winblad Venture Partners e antigo empresário no Vale.

Aparentemente, o pessoal de Wall Street consegue se safar tanto dos destroços em chamas de suas celebradas empresas como dos restos fumegantes da economia nacional. Daniel Mudd e Richard Syron, ex-presidentes de Fannie Mae e Freddie Mac, estão levando, no total, US$ 9,43 milhões em benefícios de aposentadoria, mesmo depois que o governo assumiu o controle das empresas e cancelou seus pacotes de indenização por rompimento de contrato ainda maiores. Para os rapazes do Vale do Silício e os que compartilham seus valores empresariais, uma remuneração enorme para levar sua companhia à catástrofe cheira mal.

¿São pessoas que querem ser remuneradas como se fossem empresários¿, disse Jeffrey A. Sonneneld, um professor da Escola de Administração de Yale. ¿Mas não são. Elas não correram risco nenhum.¿

No século passado, repetidos escândalos de alto escalão em Wall Street ajudaram a criar esse problema de imagem. Investigações parlamentares antes da 2ª Guerra Mundial nos trustes bancários de Wall Street inspiraram a criação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e da lei antitruste Clayton. Durante a Grande Depressão, o Congresso investigou o crash do mercado acionário e descobriu uma grande variedade de práticas indecentes pelos bancos, levando à criação de leis de transparência pública para corporações. O escândalo no sistema de poupança e empréstimo dos anos 1980 expôs novos trambiques de Wall Street e deu novos adversários ao público (Charles Keating, Michael Milken). ¿Houve um século de atividades escusas e não podemos controlá-las porque os rapazes de Wall Street sempre apelam para o espírito de liberdade e inovação americano¿, disse G. William Domhoff, professor de psicologia e sociologia da Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

¿Mas reparem, às vezes eles pisam na bola e nós começamos a suspeitar que tudo não passa de cobertura para o fato de que eles querem lucros extraordinários.¿ Agora que a afluente de Wall Street ajudou a mergulhar o país numa calamidade econômica, eles têm um problema ainda mais sério de relações públicas. Talvez devessem se mudar para o Vale do Silício.