Título: 'Não há dinheiro para cobrir o buraco'
Autor: Chiarini, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2008, Economia, p. B12

A aprovação do pacote americano de US$ 700 bilhões para a compra de créditos podres dos bancos não vai resolver a crise e ainda abre o caminho para que essas instituições peçam mais daqui a pouco. Essa avaliação é de Aluisio de Lima-Campos, presidente do Instituto Analistas Brasileiros de Comércio Internacional (ABCI Institute), com sede em Washington. O economista, que acompanha há mais de 25 anos, de Washington, a política e a economia americanas, lembra que apenas para um dos derivativos, o Credit Default Swap (CDS), foram emitidos US$ 64 trilhões em moeda. ¿São mais de quatro PIBs (Produtos Internos Brutos) dos Estados Unidos.¿

Quanto é necessário para sanear o sistema financeiro americano?

O tamanho do buraco dessa crise ninguém sabe. Por isso, ninguém dorme à noite, porque você não sabe o que vai acontecer no dia seguinte. Os números que estão sendo indicados são astronômicos. No caso dos créditos imobiliários, há US$ 8 trilhões ou US$ 9 trilhões de ativos rodando. Quanto desses vão ter problema é um número que aumenta todo dia. E ainda tem os derivativos. Só um deles, que é uma espécie de seguro de aplicação de derivativo, o CDS (Credit Default Swap), tem US$ 64 trilhões. Tem idéia do que é isso? São mais de quatro PIBs dos Estados Unidos. Se juntar todos os bancos centrais do mundo, se esses US$ 64 trilhões forem para o brejo, não há dinheiro no mundo para cobrir esse buraco. Isso é só para dar uma idéia do potencial dessa crise. Não se espera que seja isso tudo, mas se espera que um bom percentual tenha problema.

O pacote não resolve, então?

Obviamente, não. Vai resolver alguns problemas imediatos de instituições americanas e alguns de hipotecas, mas não resolve o problema. Vai abrir a porta para que as instituições, daqui a pouco, peçam mais dinheiro. E os Estados Unidos estão com déficit orçamentário de US$ 700 bilhões este ano. De onde vai sair o dinheiro para esse pacote? O atual presidente americano levou o país à ruína. Vai rodar a maquininha (emitir dólares para pagar o pacote, o que aumenta a inflação). Não dá para aumentar impostos porque o país está em recessão. O país só não acabou porque são os Estados Unidos, porque o dólar é uma moeda conversível no mundo inteiro, senão a inflação lá seria galopante. A inflação anualizada ficou em 10% em agosto - isso é oficial, não é meu cálculo. A de setembro vai dar mais de 10%.

Com inflação alta e temor de recessão, o que o Fed fará com os juros?

A taxa prime já está a 2%. Vai baixar para onde? A política monetária não está funcionando. Não adianta baixar os juros para dar liquidez porque ninguém está emprestando nada. Então, baixar os juros não está aumentando a liquidez. A inflação está explodindo na Europa e no Japão. A Europa está se dando um pouquinho melhor que os Estados Unidos, mas também está com problemas até os cabelos. Os eleitores americanos estão preocupados com a crise, mandando mensagens aos parlamentares. Do ponto de vista material, não dá para controlar o buraco. Vai caber ao governo americano tentar controlar o psicológico da crise e evitar o pânico. Se o pessoal se apavorar e for sacar dinheiro do banco, vai ser um inferno. É uma crise muito mais séria do que se pensa. Para mim, a economia americana já está em recessão, embora não atenda à definição técnica, que é a queda do PNB (Produto Nacional Bruto) durante três trimestres seguidos, com redução de emprego. O PNB real, descontada a inflação, está caindo.

Quais os principais efeitos da crise?

Em 2009, vai haver uma recessão geral e os países mais dependentes dos Estados Unidos vão sofrer mais. Colocaria aí a China, que tem enorme porcentual de suas exportações para os Estados Unidos. A China não vai crescer tão rápido nesses anos. Pode ser que continue a ser a locomotiva do mundo. Pode ser que, por ter tantas reservas internacionais e ter crescido tanto nos últimos anos, ela consiga agüentar. É o caso do Brasil, que está em excelentes condições econômicas, com reservas altas. Mas ninguém vai sair sem estar arranhado.

Quais os efeitos sobre o Brasil?

O Brasil está em condições econômicas melhores que qualquer dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) para enfrentar essa crise. Tem reservas altas. Mas cerca de 15% de suas exportações são para os Estados Unidos e outros 15%, para a Europa, e os dois mercados vão se retrair. Então, vai ter impacto. Não tem como se blindar completamente. O Brasil se tornou um porto seguro. Mas o bolo de investimento no mundo vai se reduzir. E o investidor tem vendido aqui para tapar buraco nos Estados Unidos. O investimento externo direto deve ter queda.