Título: Mantega critica atuação do FMI
Autor: Kuntz, Rolf
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/10/2008, Economia, p. B6

O Fundo Monetário Internacional (FMI) resolveu apoiar o plano financeiro anunciado pelas sete potências economicamente mais avançadas (Estados Unidos, Canadá, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália, o chamado G-7), incluída a capitalização de bancos com dinheiro público, e estará pronto para socorrer os países mais afetados pela crise nos mercados. A gravidade da crise requer ¿excepcional vigilância, coordenação e presteza para ações audaciosas¿, segundo os 24 ministros do Comitê Interino Monetário e Financeiro, órgão político de representação dos 185 países membros do Fundo.

A gravidade da situação foi realçada pela participação do presidente americano, George W. Bush, em reunião do Grupo dos 20 (G-20), realizada à tarde na sede do FMI. Esse grupo é formado por autoridades das principais economias desenvolvidas e das maiores emergentes. Foi a primeira visita de Bush ao FMI.

Com a decisão tomada na véspera, em reunião no Departamento do Tesouro, os ministros de Finanças do Grupo dos 7 (G-7) resolveram o problema principal do Comitê Interino: definir as melhores linhas de ação em face da crise financeira internacional e de seus efeitos na atividade econômica, do comércio internacional e do nível de emprego.

Os ministros do G-7 haviam combinado recapitalizar os bancos, livrar o mercado de créditos podres e promover a reativação dos empréstimos. As medidas já anunciadas devem ser suficientes para descongelar o crédito em poucos dias, comentou ontem à tarde o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn.

Ontem cedo, antes de começar a reunião no Fundo, o presidente George W. Bush recebeu na Casa Branca os ministros de Finanças do G-7. Bush reafirmou, num discurso no jardim da sede do governo, o compromisso americano de fazer o necessário para reconduzir a economia ao crescimento sustentado.

¿Os Estados Unidos¿, acrescentou, ¿têm um papel especial de liderança na resposta a esta crise. Por isso realizamos esta reunião nesta manhã, na Casa Branca, e também por isso nosso governo continuará usando todos os instrumentos disponíveis para resolver a crise.¿ Strauss-Kahn tinha mais de um motivo para se mostrar satisfeito. A iniciativa do G-7 deu sentido prático às propostas apresentadas nos dias anteriores por ele e outros dirigentes do FMI e funcionou como ponto de partida para o entendimento entre os ministros do Comitê Interino.

Em discurso na reunião do Comitê, ontem de manhã, o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, reapresentou o plano do G-7 e reiterou o compromisso de seu governo de restabelecer a segurança nos mercados financeiros e criar condições para a retomada do crescimento econômico.

A reunião de ontem, segundo Strauss-Kahn, foi diferente de todas as anteriores, porque resultou no apoio unânime a um conjunto de propostas e num compromisso geral de ação coordenada. ¿Não há solução local para uma crise como a de hoje¿, disse o diretor-gerente do Fundo, repetindo uma das frases mais ouvidas nos últimos dias.

Apesar do acordo em relação à maioria das propostas importantes, houve manifestações críticas durante a reunião. O Fundo Monetário Internacional (FMI) não deu atenção suficiente aos principais centros financeiros onde se originou a atual crise, disse ontem o ministro brasileiro, Guido Mantega. ¿Há uma clara necessidade de fortalecer o monitoramento desses mercados¿, acrescentou o ministro, cobrando também um acompanhamento mais próximo do movimento global de capitais.

Esses comentários, acompanhados de críticas à frouxa regulação do setor financeiro nos países mais avançados, foram feitos em discurso preparado para a reunião do Comitê Interino Financeiro e Monetário do FMI, órgão político de representação dos 185 países membros. ¿Até recentemente¿, afirmou, ¿o FMI estava concentrado nos problemas dos países emergentes e em desenvolvimento.¿ A decisão anunciada na sexta-feira pelos ministros do G-7 foi também comentada por Mantega. ¿O envolvimento do Estado, inclusive com a nacionalização temporária de uma grande parte do sistema financeiro nos Estados Unidos e na Europa, será necessário para restaurar o funcionamento dos mercados de crédito¿, disse o ministro.

¿Uma vez estancada a hemorragia e ultrapassada a fase mais aguda da crise, caberá corrigir os erros do passado em matéria de organização do sistema financeiro¿, continuou Mantega. O grande erro, segundo ele, foi presumir a capacidade de auto-regulação dos mercados financeiros. É preciso agora, de acordo com ele, edificar um sistema ¿cuidadosamente desenhado de controles e de supervisão¿. Ele ainda aproveitou a oportunidade para lembrar a velha prática do FMI de apontar como exemplos de boa governança os mercados financeiros onde foi gerada a atual crise.

Depois de acusar o Fundo de insuficiente atenção à desordem nos principais centros financeiros, Mantega mencionou, como um registro, a Declaração sobre Prioridades de Monitoramento para 2008-2011 aprovada no dia 8 pela Diretoria Executiva da instituição.

¿Essa Declaração¿, disse o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, ¿chega num momento particularmente crítico para a economia global.¿ Segundo ele, foram identificadas prioridades de supervisão essenciais para a solução da crise e para o retorno da economia global a um ambiente de crescimento não inflacionário.

À tarde, Mantega voltaria a falar sobre a necessidade de mudar os padrões de supervisão e controle dos mercados e de fortalecer e ampliar a cooperação internacional entre as autoridades financeiras. Seu segundo pronunciamento do sábado estava programado para a reunião do G-20, marcada para ocorrer na sede do FMI.

O ministro brasileiro, presidente do grupo em 2008, convocou a reunião na quinta-feira, por sugestão do ministro do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson. Integram o G-20 as autoridades financeiras e monetárias do G-7 e de grandes economias emergentes, como Brasil, Argentina, Índia, China e Indonésia.

Na sexta-feira à noite, Paulson havia manifestado a expectativa de apoio do G-20 às medidas de correção financeira decididas pelo G-7 durante reunião no Departamento do Tesouro. As decisões dos ministros das principais economias corresponderam às propostas defendidas durante a semana pelos principais funcionários do FMI e não deixaram muito espaço para grandes novidades políticas na reunião do Fundo.

Mantega defendeu também, no discurso da manhã, o lançamento de uma nova linha de ajuda a países com problemas de financiamento externo.

Seria ampla e de acesso fácil e destinada a países emergentes e em desenvolvimento já comprometidos com ¿políticas econômicas sólidas¿, segundo explicou. Essa proposta foi apresentada inicialmente pelo então ministro Antônio Palocci e o assunto é retomado em toda reunião do Fundo.

Mas não falta dinheiro nem linha de financiamento para esses países. O FMI reativou quarta-feira o procedimento especial, simplificado e com rápida liberação de recursos, para auxílio a emergentes. Há US$ 196 bilhões disponíveis a curto prazo para operações de socorro e até ontem nenhum país dessa categoria havia procurado ajuda. Mesmo assim, o Comitê Interino recomendou o estudo de novas linhas de financiamento para atendimento rápido aos países necessitados.