Título: Lula volta a cobrar EUA pela crise
Autor: Oliveira, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2008, Economia, p. B8
Presidente prega `nova ordem econômica¿ e pede regras para controlar a `anarquia¿ da economia internacional
Clarissa Oliveira
Em discurso para uma platéia de altos executivos americanos e autoridades do governo de George W. Bush, no encerramento do 3º Fórum de CEOs Brasil-Estados Unidos, em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou ontem dos Estados Unidos que se responsabilizem pela crise financeira. Num discurso de quase meia hora, recheado de críticas aos bancos que deflagraram a crise, Lula pregou a criação de uma ¿nova ordem econômica mundial¿ e de regras para ¿controlar a anarquia¿.
¿Não é justo que a parte mais pobre do mundo termine pagando pelos desacertos de uns poucos¿, disse Lula, ao encerrar um fórum com executivos de empresas do Brasil e dos Estados Unidos, entre elas gigantes como Intel, Cummins, Cargill, Alcoa e Coca-Cola. ¿Também não é justo que países que fizeram um grande esforço para reconstruir suas economias arquem com os custos da irresponsabilidade daqueles que conduziram essa crise na economia global.¿
Mesmo tendo na platéia o secretário de Comércio dos EUA, Carlos Gutierrez, Lula disse que a crise poderia ter sido amenizada ou até evitada se as condições do mercado fossem conhecidas antes. O fato, disse, é que nem mesmo governantes e bancos centrais sabiam ao certo o que acontecia. ¿Algumas pessoas agiram como se fossem um adolescente com um boletim da escola com nota vermelha, querendo esconder dos pais¿, disse. ¿Ou os presidentes e primeiros-ministros, que têm mandato da sociedade, tomam uma posição ou os resultados do que aconteceu nessa crise podem ser muito delicados para o restante do mundo.¿
Em sua fala, que antecedeu a de Lula, Gutierrez disse que os EUA colocaram em uso todas as ferramentas de que dispõem para controlar o problema. ¿Estamos comprometidos a fazer tudo o que for necessário¿, afirmou. ¿Vamos superar isso.¿
`DONOS DA CRISE¿
Lula apoiou seu discurso na tese de que os ¿donos¿ da crise não apenas os bancos. Na lista, disse ele, estão todos os que permitiram que essas instituições multiplicassem em até 35 vezes seu capital. ¿Vamos ser francos: a atividade de um banco, por si só, já é rentável¿, disse. ¿Ninguém precisa trabalhar no submundo da especulação para ganhar um pouco mais.¿
Para Lula, a crise pôs em evidência a ¿falência dos sistemas de governança mundial¿. Mas o Brasil, continuou, está preparado para enfrentar a situação. ¿Não sou um homem chegado a vender catástrofe quando não vejo catástrofe¿, destacou Lula, descrevendo-se como um ¿otimista¿. Ao admitir que a crise preocupa, ele disse se tratar também de uma ¿oportunidade¿ para nações que conduziram políticas econômicas sérias. ¿Estamos colhendo o resultado da responsabilidade com que tratamos a economia deste país.¿
Lula atribuiu a uma ¿ironia do destino¿ o fato de países emergentes estarem em melhor condição que nações desenvolvidas. ¿Quando eram os países pobres, sobretudo os emergentes, que estavam em crise, eu me lembro quanta gente dava palpite sobre o meu país¿. Ao defender a prioridade a investimentos produtivos, em detrimento de aplicações financeiras, Lula disse ver ¿o fim do domínio da economia virtual¿.
Ele também voltou a fazer um apelo pela retomada das negociações na Rodada Doha. ¿Só existe uma razão para não ter o acordo na Rodada de Doha: é a questão político-eleitoral¿, disse, mencionando a eleição presidencial americana. O presidente também garantiu que manterá os investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). E avisou: ¿Se for preciso vou viajar o mundo procurando meus amigos e ver quem tem dinheiro para emprestar para um bom pagador¿.
No mesmo local do encontro com os CEOs, Lula também teve encontro com os evangélicos, ao lado de Marta Suplicy. ¿A crise americana parece um furacão. Todo dia alguém conta uma história, mas essa crise já tem mais de um ano¿, lembrou o presidente. ¿Nós vamos enfrentar a bicha do jeito que ela deve ser enfrentada¿.