Título: Queda do petróleo ameaça pré-sal
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2008, Economia, p. B9

Capacidade de investimento da Petrobrás será afetada, diz AIE

Jamil Chade

A crise mundial irá afetar a capacidade da Petrobrás de investir em suas novas reservas na área do pré-sal e a expansão da produção brasileira de petróleo pode sofrer atrasos importantes. O alerta é da Agência Internacional de Energia (AIE), que ontem divulgou seu relatório mensal. Apresentando revisões para baixo do volume da demanda por petróleo nos países ricos, a AIE aponta para o menor crescimento do setor em 15 anos.

A agência ainda alerta para a possibilidade de que uma recessão e a falta de créditos tenham impactos nos investimentos e na demanda por petróleo nos próximos dois anos. Já a demanda nos países emergentes continuará a crescer, salvo na América Latina e África.

¿Incertezas e falta de créditos vão desacelerar o ritmo de investimentos¿, afirmou a AIE, que destaca que projetos na Rússia e no Mar Cáspio já sofrem paralisias diante da crise e de empresas endividadas.

Planos ambiciosos de expansão, como no caso da Petrobrás, podem ser adiados. Para a AIE, a empresa precisará de US$ 500 bilhões para explorar as novas reservas. ¿Alguns analistas prevêem que uma proporção grande de todas as explorações globais serão canceladas.¿

Uma das principais preocupações está relacionada à falta de crédito nos mercados do petróleo e ao colapso de bancos. Segundo a AIE, os preços do barril vem caindo, mesmo diante de um corte de produção e ontem atingiram US$ 82 por barril. Nos países da Opep, o corte foi de 300 mil barris por dia e os líderes do grupo já convocaram uma reunião para tratar do assunto em novembro.

BRASIL

A AIE destacou a recusa do Brasil de aderir à Opep. Para a entidade, isso é uma indicação que o Brasil ¿se vê no longo prazo mais como um exportador de produtos refinados que como um exportador de petróleo bruto, se os planos de sua capacidade de refinar forem completados¿. A agência admite que o Brasil foi um dos responsáveis pela alta na produção dos países de fora da Opep em 2008.

Em julho, a produção nacional chegou a 1,87 milhão de barris por dia. Em média, o País deve fechar o ano com produção de 1,88 milhão de barris, 135 mil a mais que em 2007, e 2,1 milhões em 2009. Apesar disso, a AIE diz que ¿as estimativas da Petrobrás foram revistas para baixo diante do desempenho abaixo do esperado em alguns projetos¿.

Para a AIE, a demanda futura nos países ricos cairá por causa dos altos preços e do enfraquecimento profundo das economias. A AIE também prevê uma recessão em todos os países ricos e alerta: ¿Ninguém poderá prever a ferocidade ou duração da atual tempestade econômica, nem sem uma ampla recessão será evitada.¿ Para a AIE, a questão é ¿como os mercados emergentes serão afetados¿ A avaliação da AIE é que os emergentes mostrarão ¿certa resistência¿ e a China deve continuar a crescer.

A nova previsão estima que a demanda mundial será de 86,5 milhões de barris por dia em 2008, 240 mil a menos que a estimativa original. Só nos EUA a queda foi de 3,7% em agosto - oitavo mês consecutivo de decréscimo. Nos países ricos em geral, o corte será de 360 mil barris por dia - 2,2% a menos que em 2007. No total, os países ricos demandarão 48,1 milhões de barris por dia, 1 milhão a menos que em 2007.

Já nos países emergentes, a previsão é que a demanda continue relativamente forte. Para esses países, o consumo será de 80 mil barris a mais do que se previa anteriormente. Em relação a 2007, isso representará uma alta de 4,2% e um total de 38,4 milhões de barris por dia.

Para 2009, a queda nos países desenvolvidos será ainda maior do que agora, 440 mil barris a menos que o previsto. No total, o mundo consumirá 87,2 milhões de barris por dia em 2009. Nos países ricos, a queda será de 1,3%.

Nos países emergentes, o consumo continuará aumentando em 3,4%, para um total de 39,7 milhões de barris por dia, em 2009. Para suprir os emergentes, serão necessários 1,3 milhão de barris a mais por dia.

Mas a previsão apenas é positiva graças à Ásia. Na América Latina, a AIE prevê uma queda na demanda de 280 mil barris por dia em 2007 para 243 mil neste ano e 223 mil em 2009.

Para 2008, a AIE destaca ainda que o etanol está sendo fundamental na expansão da produção de combustíveis nos países de fora da Opep. A produção de biocombustíveis foi superior ao petróleo extra que os países do mar Cáspio produziram no ano. Para 2008, o incremento de etanol significou o equivalente a mais de 300 mil barris de petróleo por dia, devendo chegar perto de 400 mil, em 2009.