Título: Parece que todo mundo combinou de fechar o caixa
Autor: Pereira, Renée; Aragão, Marianna
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/10/2008, Economia, p. B3

As empresas brasileiras nem se lembravam mais de como a escassez de crédito pode atrapalhar as decisões de investimento e o andamento dos negócios. Nos últimos cinco anos, a abundância de dinheiro no mercado permitiu a rápida expansão das companhias. Hoje, a situação se inverteu com a deterioração da crise mundial. Conseguir fechar uma operação de crédito exige uma via-crúcis do empresário. ¿Parece que estamos pedindo um favor aos bancos¿, diz a presidente da Dudalina, Sônia Hess de Souza.

Na semana passada, a empresária tentou fazer um Adiantamento de Contrato de Exportação (ACE) de apenas US$ 50 mil. Procurou três grandes bancos e recebeu resposta negativa de todos. Segundo ela, as instituições argumentaram que não tinham dinheiro para fazer a operação. ¿A impressão é de que todo mundo combinou de fechar o caixa.¿

Sem o financiamento, Sônia teve de usar recursos próprios para honrar os compromissos da empresa, famosa pela confecção de camisas. Ela conta que decidiu adiar o planejamento estratégico, que tradicionalmente ocorre em outubro, para novembro. ¿Vamos procurar alternativas e preservar os 1.300 empregos da companhia¿, conta ela, que exporta para América do Sul e Europa.

A indústria de calçados Kissol teve de usar a mesma alternativa para suprir a escassez de dinheiro. ¿Estamos matando um leão por dia¿, diz Renato Maurício de Paula, diretor-financeiro da companhia, que emprega 300 funcionários no pólo calçadista de Franca (SP). Ele conta que começou a perceber mudanças na negociação com os bancos há duas semanas. ¿Antes ligávamos e fechávamos o câmbio na hora.¿

Agora, segundo ele, as instituições afirmam que não têm mais dinheiro para as linhas de crédito internacionais. ¿Eles alegam que os banqueiros lá fora não renovaram as linhas¿, diz o diretor. Por isso, mesmo garantidos por instrumentos como carta de crédito e com toda a documentação em ordem - como faziam poucas semanas atrás -, o dinheiro não chega.

As restrições na concessão de crédito não distingue tamanho nem atividade econômica. Grandes companhias também têm encontrado dificuldades para fechar operações de capital de giro, cujas condições estão cada vez mais desfavoráveis. Além de garantias maiores, os juros embutidos nas linhas dobraram.

O diretor de Exportação, Marketing e Outsourcing da Teka, Marcello Stewers, conta que, antes da explosão da crise mundial, pagava de 7% a 9% ao ano numa linha de crédito para exportação. Nesta semana, a taxa saltou para entre 18% e 19%.

Apesar disso, Stewers diz que a situação já foi pior. ¿Há duas semanas, os bancos nem nos atendiam ou diziam que não tinham dinheiro. Era cada um por si e Deus por todos. Foram dias de muito nervosismo¿, relata ele. A fabricante de produtos de cama, mesa e banho exporta 25% da produção para o mundo inteiro e emprega 4.700 funcionários em Santa Catarina e São Paulo.

O executivo comenta que a seletividade por parte das instituições financeiras está muito rígida. ¿Não basta ser bom, tem de ser ótimo¿, diz ele, referindo-se à classificação de risco das empresas. Mas as dificuldades não param aí. Além da austeridade e custo maior, as operações têm demorando um tempo bem maior para serem aprovadas. ¿Perde-se agilidade. Agora as coisas estão sendo mais discutidas¿, destacou Adriano Lima, presidente da Gyotoku, uma das maiores empresas do setor de cerâmica, instalada no interior de São Paulo.

Com a redução do crédito para o setor de construção civil, principal fonte de demanda da empresa, o executivo afirma que a tendência é de desaceleração do crescimento do setor nos próximos trimestres. ¿Se bem que a redução da liquidez vai afetar o crescimento de todas as empresas do País. Por isso, é importante que se restabeleça a confiança.¿

REIVINDICAÇÕES

Os empresários e representantes do setor produtivo reivindicam ações do governo para fazer o dinheiro circular no mercado. Segundo eles, a tentativa de irrigar o crédito, diminuindo o recolhimento do compulsório, não surtiu efeito. ¿O crédito não apareceu na nossa conta¿, diz o presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), José Luiz Fernandez. ¿Esperamos que o governo aperte os bancos.¿

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, defende que o governo encontre um mecanismo para direcionar os recursos que foram liberados para o sistema bancário. ¿O grande defeito foi liberar o dinheiro e não fazer nada para contingenciá-lo.¿ Outra opção, afirma, seria reduzir os juros dos títulos públicos, obrigando as instituições a buscar opções mais rentáveis no mercado. ¿Os bancos têm de botar a mão na consciência.¿

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Estudo das Empresas Transnacionais, Luís Afonso Lima, a escassez de crédito prejudica, principalmente, as empresas exportadoras. ¿Os contratos de câmbio são o oxigênio das exportadoras e sua redução pode afetar o faturamento dessas companhias.¿