Título: Há dinheiro. Agora, é irrigar
Autor: Barbosa, Mariana
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/10/2008, Economia, p. B10

Os Estados Unidos e a União Européia estão injetando mais de US$ 3 trilhões nos principais bancos, mas a crise financeira está longe ainda de ter sido superada. A ministra das Finanças da França, Christine Legard, alertava na sexta-feira que agora pode ser a vez dos fundos de hedge. São os mesmos que alimentaram esse processo insensato ao aceitar valores vultosos de títulos imobiliários ou correlatos de segunda linha, subprime, muito acima do que poderiam.

¿Esses fundos são pouco regulados e operam no limite¿, disse ela. Eles estão sofrendo grandes perdas; estima-se que no terceiro trimestre foram US$ 1,72 trilhões. Só em setembro, entre prejuízo declarado com títulos ruins e saída de clientes, foram US$ 79 bilhões. E isso continuou em outubro. São investidores que aplicaram seus recursos, muitas vezes poupança, nesses fundos em busca de rendimento. E o vinham obtendo até há alguns meses. Agora, buscam abrigo nos títulos do Tesouro americano, que está rendendo cada vez menos, mas é seguro. São papéis comprados pela China que já têm em suas reservas cerca de US$ 1 trilhão.

A SEMANA DAS DESCULPAS

Também não faltaram nesta semana declarações de arrependimento e quase pedidos de desculpas. Começou na quarta-feira pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson. Em uma série de entrevistas às televisões, declarou que ¿não estava orgulhoso dos erros cometidos, que levaram à maior crise em sete décadas.¿ Ele expressou ¿arrependimento¿, e admitiu que foi a falta de disciplina e as falhas na regulação do mercado que levaram a esta crise. Agora, acrescentou, ¿a administração (o governo), está perseguindo o curso correto para pôr fim a ela.¿

A VEZ DA ALEMANHA...

Na sexta-feira, foi a vez do ministro das Finanças da Alemanha, Peter Steinbrück, a admitir que ¿a crise não recebeu em momento algum a atenção que devia.¿ Este é um momento excepcional que exige urgência. Só que o mesmo ministro e a mesma Alemanha enterraram a proposta de Sarkozy de criar um fundo de emergência de US$ 300 bilhões para capitalizar os bancos europeus sobrecarregados com papéis podres. E rejeitaram categoricamente a proposta de Gordon Brown, não de pacotes, mas de injetar tanto quanto fosse necessário nos bancos com problemas de liquidez. Arrependeu-se. E na mesma sexta-feira, o ministro alemão fez questão de anunciar a aprovação, pelo Congresso, de US$ 670 bilhões para ajudar bancos do país. Só que, nesse tempo, passaram-se mais de três semanas, exatamente essas que levaram a crise a este ponto de quase implosão. Evidentemente, uma ação preventiva não a teria evitado, mas muito certamente ela não teria essa dimensão.

POR QUE NÃO VIRAM

Há alguma atenuante para o fato de se ter previsto o que iria acontecer. Uma: os bancos de investimento, os fundos de hedge, as seguradoras, realizaram operações complexas com hipotecas imobiliárias que viraram ativos financeiros, negociáveis. Formou-se uma rede inextricável, o que foi possível unicamente porque era um mercado pouco regulado. É tudo de tal forma complexo que ainda hoje se discute sobre quais são os verdadeiros valores em risco.

A ECONOMIA RESISTIA

Outro argumento para justificar a falta de percepção foi a resistência da economia por muito tempo. Mesmo quando a bolha ia se tornando visível pelo aumento exponencial dos financiamentos imobiliários a juro baixo e um número excessivo de compras e vendas de imóveis, a economia continuava crescendo. E crescia porque esse mesmo setor de construção sustentou quase sozinho o crescimento da economia americana a partir de 2002. Ela saíra abalada da crise da internet e do ataque terrorista às torres. A bolha imobiliária foi bem-vinda porque salvava a economia, mas temida porque envenenava o sistema de hipotecas duvidosas. A complexidade de novos instrumentos financeiros e crescimento num momento em que ele era vital impediram que se visse o que estava realmente ocorrendo no subsolo.

CUIDADO COM AS BOLSAS!

Não, não vou sugerir a vocês que entrem ou saiam dela, mas aviso para não considerarem o que estão vendo nas bolsas como algo que represente o cenário econômico atual. As bolsas estão vivendo um momento em que não refletem realmente a economia. Sobem às nuvens e afundam na terra em questão não de dias, mas de horas. Nesta semana, foi a epopéia de recordes de maior alta e maior baixa. Mais 7%, menos 7%. Paradas em São Paulo, quando caía 10%, 13%, mas fechando equilibrada. No início da semana, a bolsa americana despencou porque a recessão já havia chegado, diziam os operadores de olhos envoltos em olheiras profundas. Vai acabar o mundo, era o caos, era o delírio. Ela subiu, caiu, subiu de novo, caiu de novo e, na sexta-feira, mesmo com pequena baixa no dia, a Dow Jones fechou a semana em alta de quase 5%. Mas, como se só houve noticia ruim! Os preços dos imóveis despencaram e ele sinalizam o andar da crise, pois quando caem, a tal hipoteca ativo financeiro, perde valor; caiu também o índice de confiança do consumidor e o de construção nem se fala, afundou. Foi tudo ruim, muito ruim, mas a bolsa terminou bem sem crise, sem caos e até em alta na semana... Amanhã, começa tudo de novo...

CUIDADO AQUI TAMBÉM

Aqui? Bem, aqui tem o preço do petróleo que cai, tem o do minério de ferro que recua, tem as empresas que perderam com a alta do dólar, tem..tem... muita volatilidade, tem muito dinheiro, tem muita gente comprando na baixa, vendendo na alta o que desaba ou eleva o índice.

E, cá entre nós, eu pergunto, o que é que tudo isso tem a ver mesmo com a economia que vai muito bem ainda?

Portanto, meu caro leitor, não se preocupe muito com ela, não. Bem, a não ser que você tenha se aventurado lá para ganhar ou perder. Boa sorte, mas, desculpe, meu caro, o problema é seu, apenas seu... Nós aqui vamos indo muito bem.

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