Título: Baixa renda teme a volta da inflação e se prepara para crise
Autor: Barbosa, Mariana
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/10/2008, Economia, p. B10

A nova classe média está consciente de que o tsunami financeiro internacional está fazendo marola no Brasil - para recorrer à analogia usada pelo presidente Lula - e já começa a apertar os cintos. O Natal deste ano, acreditam os novos consumidores das classes C e D, será mais magro. E o temor, no caso de uma arrebentação, é a volta da inflação.

Os dados fazem parte de uma pesquisa do Ibope sobre a ¿Percepção dos efeitos da crise financeira no País pelas classes C e D¿, encomendada pela agência de publicidade 141 SoHo Square, do grupo WPP. O instituto foi a campo entre 7 e 9 de outubro - dias de pânico nos mercados e em que o dólar disparou, chegando a R$ 2,30. Foram ouvidas 400 pessoas com renda familiar de até R$ 1,2 mil, em Brasília, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador. A margem de erro é de cinco pontos porcentuais para mais ou para menos.

Os entrevistados são uma pequena amostra dos 20 milhões de brasileiros que ingressaram no mercado consumidor nos últimos dois anos, impulsionados pelo aumento do crédito. Com mais televisores, computadores e celulares, estão mais bem informada: 89% sabem que existe uma crise financeira internacional. Para 10%, contudo, a crise não passa de ¿exagero da imprensa¿.

O grupo dos 89% que sabem que há uma crise mundial se divide entre os que acham que ela já chegou ao Brasil (48%), os que acham que pode chegar nos próximos anos (25%) e os otimistas (16%), que, assim como Lula semanas atrás, acham que a crise não se refletirá no País.

MEDO DA INFLAÇÃO

O maior medo da população de baixa renda é a inflação: 35% temem a volta da inflação dos ¿produtos em geral¿ e 30% temem a alta dos preços dos alimentos. Já 20% dos entrevistados temem a perda do emprego. O medo de não conseguir pagar as prestações aflige 13%.

Os dados mostram uma população cautelosa: 45% prevêem um Natal mais magro que o do ano passado. Para 31%, o Natal deste ano será igual ao de 2007 e 21% planejam uma festa mais farta. Numa pergunta de múltipla escolha, 26% dos entrevistados afirmaram já ter cortado algum item da cesta básica e 24% abriram mão de algum lazer; 20% pararam de pagar alguma dívida, enquanto 21% afirmaram não ter cortado nada.

Questionados sobre ¿o que deve acontecer com o crescimento da economia brasileira¿, 56% declararam que ela deve crescer ¿mais lentamente¿. Para 23%, o ritmo não muda e 18% acreditam que a economia vai ¿parar de crescer¿. A pergunta foi precedida da afirmação de que ¿nos últimos anos o Brasil construiu uma economia sólida e incluiu socialmente milhões de pessoas¿.

Para o diretor de atendimento do Ibope Inteligência, Hélio Gastaldi, o instituto subestimou a percepção das classes C e D em relação à crise. ¿Quando estávamos elaborando as perguntas, queríamos saber se as pessoas já tinham ouvido falar da crise¿, afirma.

A agência 141 SoHo Square, que tem entre clientes empresas que vendem para a baixa renda, também quis saber a percepção da população quanto ao preparo do governo para enfrentar a crise. Só 16% acreditam que o governo está bastante preparado e conseguirá resolver a situação. Para 43%, o governo está preparado, mas terá dificuldades para resolver a situação. Um grupo de 38% acredita que o governo não está preparado para enfrentar a crise.

Para o presidente da agência, Mauro Motoryn, o presidente Lula conseguiu traduzir a crise para a população. ¿As pessoas entenderam o que o Lula falou e estão fazendo a sua parte, apertando um pouco o cinto. Estão otimistas, pois são otimistas por natureza, e estão sendo realistas por necessidade.¿