Título: O combate à recessão
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Fonte: O Estado de São Paulo, 27/10/2008, Notas & Informações, p. A3
É hora de evitar a recessão, a pior conseqüência da crise financeira no mundo rico, e medidas para reativação da economia já estão na agenda política dos países mais avançados. A primeira reação à turbulência financeira foi injetar dinheiro no mercado para conter a quebradeira dos bancos. Trilhões de dólares foram mobilizados para a operação de socorro. Essa tarefa continua em execução, mas é urgente cuidar do desafio seguinte. ¿Era preciso conter a crise financeira. Agora é preciso reativar a máquina econômica¿, disse o primeiro-ministro da França, François Fillon, ao anunciar medidas para estimular os negócios e a criação de postos de trabalho. O ministro das Finanças do Reino Unido, Alistair Darling, já havia mencionado um plano de aumento de gastos públicos e de incentivos setoriais para movimentar a economia. O sentimento de urgência aumentou depois de conhecidos novos sinais de recessão na economia britânica. Nos Estados Unidos, a defesa de um novo programa de estímulo ao consumo surgiu na segunda-feira passada de forma um tanto surpreendente.
Em depoimento no Congresso, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, disse apoiar um novo pacote fiscal para reforçar a demanda. O pacote anterior foi adotado no primeiro semestre e custou US$ 168 bilhões. A maior parte desse dinheiro, US$ 100 bilhões, foi usada para a restituição de impostos. Isso ajudou a sustentar o consumo por breve período.
O novo pacote americano, defendido principalmente por parlamentares democratas, deverá envolver, se aprovado, cerca de US$ 300 bilhões destinados tanto a investimentos em infra-estrutura quanto a programas sociais. A Casa Branca vinha resistindo à idéia, mas o governo agora se mostra ¿aberto¿ à discussão da proposta, segundo a porta-voz do presidente George W. Bush, Dana Perino. Depois da intervenção de Bernanke, fica mais difícil o Executivo rejeitar um novo plano de estímulo à economia, indo além do pacote recém-aprovado de capitalização dos bancos e de absorção de ativos podres do mercado financeiro.
A sugestão do presidente do Fed foi apresentada em linguagem muito cautelosa, quase no terço final de um longo depoimento à Comissão de Orçamento da Câmara de Representantes. A economia americana, segundo ele, provavelmente permanecerá fraca por vários trimestres, afirmou. Nesse caso, ¿a consideração de um pacote fiscal pelo Congresso, neste momento, parece adequada¿, acrescentou Bernanke.
A Casa Branca, segundo a porta-voz Dana Perino, poderia consultar o presidente do Fed sobre o assunto. É uma situação incomum: autoridades do Executivo, e não só nos Estados Unidos, não costumam consultar os dirigentes do Banco Central para decidir se devem aumentar o gasto público.
A adoção de medidas anti-recessivas nos Estados Unidos, na França, no Reino Unido e noutros países avançados é crucialmente importante, neste momento, em face do rápido contágio da crise financeira e do risco de uma recessão generalizada. Na quinta-feira, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou cortes de impostos e um pacote de 375 bilhões para amenizar a crise. O FMI projeta um crescimento de apenas 0,6%, em média, para o Produto Interno Bruto (PIB) dos países da União Européia em 2009. Para a zona do euro, a projeção é ainda pior, 0,2%.
O contágio da crise financeira e da redução do crescimento econômico já é sensível também na China, embora a expansão econômica medida até setembro (taxa anual de 9%) ainda seja muito grande. Mas há o risco de maior desaceleração e, diante da retração nos Estados Unidos e na Europa, os exportadores chineses deverão voltar-se para o Brasil e outros grandes mercados emergentes.
Quanto mais veloz a adoção de medidas anti-recessivas no mundo rico, menor o risco de problemas devastadores nos países em desenvolvimento. Os primeiros efeitos da crise internacional atingiram o Brasil pelo canal financeiro, com a redução do crédito. Os efeitos seguintes virão pelo comércio exterior e serão tanto mais graves quanto maior a retração dos mercados. O Banco Central tem trabalhado para impedir grandes oscilações cambiais e para fornecer liquidez ao mercado. No Executivo, a reação mais forte, até agora, consistiu na edição de uma medida provisória mais propícia a uma política estatizante do que à solução dos problemas econômicos do momento.