Título: Rivais de Chávez criticam prorrogação
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/11/2008, Internacional, p. A10
Filas imensas, causadas pelo alto comparecimento, atrasavam ontem à noite a divulgação dos resultados das eleições regionais na Venezuela - convertidas pelas ações do presidente Hugo Chávez em mais um plebiscito sobre o governo e a sua ¿revolução bolivariana¿. A oposição viu indícios de fraude no anúncio do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de que se manteriam abertos os centros de votação nos quais havia eleitores na fila.
Julio Borges, Henry Ramos Allup e Ismael García, líderes dos partidos opositores Primeiro Justiça, Ação Democrática (AD) e Podemos, respectivamente, disseram que o CNE tinha recebido uma ¿ordem fraudulenta¿ de Chávez para prorrogar a votação em todas as seções eleitorais. O governo ¿sabe que está perdendo e por isso deu essa ordem¿, manifestou Borges. O organismo eleitoral, porém, esclareceu que apenas os centros nos quais havia fila ficariam abertos.
Já o líder opositor e candidato à prefeitura de Maracaibo, Manuel Rosales, baixou o tom das declarações e pediu que a população aguarde com ¿tranqüilidade¿ os resultados. ¿Nenhum escarcéu de última hora poderá mudar o resultado das eleições¿, declarou.
Com os meios de comunicação impedidos de divulgar pesquisas de boca-de-urna antes do término da votação e do anúncio do primeiro boletim oficial, os resultados preliminares da votação só eram esperados para o começo da madrugada de hoje, no horário de Brasília.
Pela manhã, técnicos do Comitê Nacional de Telecomunicações (Conatel) ocuparam torres de transmissão e outros locais estratégicos para ¿monitorar o trabalho das emissoras¿ e garantir que as restrições não seriam violadas.
¿Esse voto é o que vai definir o futuro da revolução, o futuro do socialismo e o futuro de Chávez¿, afirmou o presidente - dando o tom plebiscitário da votação -, enquanto líderes opositores exaltavam a eleição como a sua grande chance de conquistar mais espaço político e pressionar por uma divisão mais equilibrada do poder.
À noite, em resposta às acusações dos líderes opositores, Chávez declarou que as eleições venezuelanas eram ¿impossíveis de serem fraudadas¿. Em tom relativamente conciliador - em contraste com a retórica agressiva e ameaçadora da campanha -, afirmou que estava pronto para ¿receber com tranqüilidade¿ qualquer resultado das urnas.
A votação elegeria 22 governadores, 328 prefeitos e 233 legisladores regionais. Milhares de venezuelanos chegaram aos locais de votação ainda de madrugada, por volta das 4 horas, para votar. Os que se atrasaram tiveram de passar pelo menos uma hora na fila para alcançar as urnas - conseqüência do burocrático sistema eletrônico de votação, no qual a impressão do eleitor é escaneada e, após o registro do voto, ele recebe uma cédula-comprovante em papel, que é depositada numa urna para posterior auditoria.
Em meio ao clima tenso da campanha, houve até quem tivesse corrido aos supermercados no sábado para manter a despensa cheia para qualquer eventualidade. A prática recebe um nome especial dos venezuelanos: são as ¿compras nervosas¿.
A segurança foi feita por cerca de 140 mil soldados das Forças Armadas. Pelas últimas sondagens, da semana passada, a oposição poderia vencer em até oito Estados, entre eles alguns de imenso peso populacional e econômico como Zulia, que produz 80% do petróleo venezuelano, e Carabobo, o maior pólo industrial do país.