Título: A segunda derrota de Chávez
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Fonte: O Estado de São Paulo, 26/11/2008, Notas & Informações, p. A3
As eleições regionais de domingo na Venezuela empurraram o chavismo para os grotões do país e derrubaram o mito de que os pobres são eleitores cativos do caudilho. Embora os seus candidatos tenham sido vitoriosos em 17 dos 23 Estados em disputa, a oposição levou a melhor nas áreas mais populosas e desenvolvidas, como os Estados de Zulia, que produz 80% do petróleo venezuelano, Carabobo, o principal pólo industrial, e Miranda, onde se situa Caracas. Chávez também foi derrotado na capital e em Maracaibo, a segunda maior cidade do país. Ao todo, a oposição passa a administrar um território que reúne 45% da população e responde por 70% da riqueza nacional. ¿Foi uma grande vitória revolucionária¿, fantasiou Chávez. Na sua versão, houve apenas ¿vitórias limitadas, parciais, setoriais de alguns movimentos opositores e de alguns líderes opositores¿.
Especialmente humilhante para o coronel foi o revés sofrido por seu candidato, o ex-ministro das Comunicações Jesse Chacón, no município de Sucre, na grande Caracas, onde se localiza Petare, um dos maiores, mais pobres e mais violentos complexos de favelas da América Latina, com cerca de 500 mil habitantes, tido como um reduto bolivariano. Antes do pleito, Chávez mandou distribuir ali móveis e eletrodomésticos em profusão. É fácil imaginar a sua fúria diante da vitória do oposicionista Carlos Ocariz, um engenheiro de 37 anos, do partido Primeira Justiça, eleito com mais de 55% dos votos. ¿A vitória de Ocariz derrubou dois mitos¿, observa o pesquisador venezuelano Luis Vicente León. ¿Primeiro, que só Chávez pode vencer em bairros pobres. Segundo, que a disputa política na Venezuela é apenas uma luta de classes entre os pobres, que apoiariam a revolução, e os ricos, que são oposição.¿
Na realidade, os resultados eleitorais indicam que o chavismo desce a ladeira entre os venezuelanos que têm acesso à imprensa independente que ainda resta no país, seja qual for o estrato social a que pertençam. Reciprocamente, mantém-se robusto nas áreas menos urbanizadas onde o regime consegue controlar a informação - e onde a dependência do Estado é mais acentuada. Nos principais centros, a maioria não se deixou intimidar pelos arreganhos do ditador, quando decidiu transformar a eleição em um plebiscito sobre os seus 10 anos de poder autocrático. Não só ele percorreu o país chamando os oposicionistas de ¿porcos¿ e ¿traidores¿, como ameaçou prender seus adversários e pôr os tanques na rua em Carabobo, caso a oposição vencesse a disputa nesse Estado industrial, o terceiro mais populoso da Venezuela, com 2,6 milhões de habitantes. O candidato bolivariano derrotado, que faz parte do círculo íntimo do caudilho, tem um programa de televisão de invectivas e baixarias contra os adversários do chefe.
O efeito mais palpável da rejeição a Chávez - cujas ¿grandes realizações¿, que pesaram nas decisões de voto, incluem a escassez de gêneros de primeira necessidade, a inflação de 30% e a desenfreada criminalidade, sobretudo em Caracas - está no fortalecimento da resistência aos seus planos de se perpetuar no poder. A sua derrota no referendo de dezembro sobre a Constituição que lhe permitiria se perenizar no Palácio Miraflores não o fez mudar de idéia, mas apenas de tática. Meses depois, Hugo Chávez baixou um pacote de 26 ¿leis habilitantes¿ - espécie de lei delegada que, para vigorar, não precisa da aprovação da Assembléia Nacional, de resto totalmente controlada pelo caudilho - contendo muitas das mudanças rejeitadas no referendo. Uma delas autoriza o Executivo a redesenhar a ¿geografia do poder¿ na Venezuela, agrupando os Estados em macrorregiões governadas por prepostos do autocrata. É muito provável que ele venha a sacar dessa arma para tentar neutralizar o baque sofrido domingo. Se há uma coisa de que não se pode acusá-lo é de descumprir o que promete.
A lei que anula as prerrogativas dos governadores de Estado foi exatamente uma precaução que tomou para quando se erguesse um obstáculo aos seus intentos totalitários. Mas, depois dessa sua segunda derrota em um ano, é duvidoso que ele possa exercer o arbítrio com a desenvoltura de antes. A oposição disforme de anos atrás se reconstruiu, prometendo desafiá-lo a uma voz nas eleições parlamentares de 2009, a opinião pública se mostra revigorada - e a fonte de poder do petróleo a mais de US$ 100 secou.