Título: Crise afeta prevenção contra a aids, diz ONU
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/11/2008, Vida &, p. A30

A crise econômica mundial pode se tornar um ¿sério obstáculo¿ para o esforço do governo brasileiro de fornecer o coquetel contra aids a mais de 140 mil pessoas no País. O alerta é da Unaids, braço das Nações Unidas para o combate à doença, que teme que recursos internacionais usados em projetos de prevenção e tratamento em países emergentes possam secar nos próximos meses.

Dados da entidade mostram que, em quatro anos, o custo do programa brasileiro dobrou. ¿Em 2008, o governo brasileiro precisou de US$ 525 milhões (R$ 1,2 bilhão). O valor é duas vezes o que foi gasto em 2004¿, aponta a Unaids, que publicou ontem seu relatório anual para marcar o dia internacional contra a doença, comemorado na próxima segunda-feira. ¿Países como o Brasil terão sérios desafios para continuar financiando seus programas¿, disse Paul de Lay, diretor de políticas públicas da agência.

O novo relatório mostra que quase 60% dos pacientes no mundo ainda não têm acesso gratuito ao tratamento. São 4 milhões de pessoas com acesso a remédios, contra quase 10 milhões de desassistidos. ¿O maior desafio no momento para o Brasil é financiar a transição entre pacientes que recebem a primeira linha de remédios contra a aids para o fornecimento de remédios de segunda linha¿, afirmou Lay. ¿O Brasil utilizou muitos mecanismos de ameaça e quebra de patentes para reduzir os preços cobrados pelas multinacionais. Mas agora, com a crise, os problemas podem ser bem mais sérios.¿

A entidade destaca que, de fato, os avanços no combate à doença são modestos na atual década. ¿O que tememos é que, em dois ou três anos, quando a recessão acabar, estejamos vivendo num mundo pior em termos de saúde.¿ Segundo ele, um dos impactos da crise pode ser uma alta no número de casos de infectados pelo HIV diante da falta de recursos para projetos de prevenção.

Nos últimos oito anos, o número de mortes anuais por aids diminuiu apenas marginalmente. Em 2001, foram 2,2 milhões de mortos. Em 2007, caiu para 2 milhões. Os novos casos passaram de 3 milhões por ano, em 2001, para 2,7 milhões em 2007.

A ONU ainda admite que está com dificuldades para vencer a guerra. ¿As pessoas estão se infectando num ritmo maior do que nossa capacidade de oferecer tratamento¿, alertou o secretário-geral da entidade, Ban Ki- moon. Para cada cinco novas pessoas afetadas, a comunidade internacional consegue oferecer remédios para duas.

Um dos maiores desafios tem sido informar os jovens sobre como se proteger da doença. O estudo da Unaids revelou que, em média, 60% dos meninos até 16 anos no mundo não sabem se proteger contra o vírus. Entre as meninas, 62% desconhecem as formas de evitar a doença.