Título: Lula envia a Obama sugestões para lidar com crise
Autor: Domingos, João
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/11/2008, Internacional, p. A21
Aproveitando a transição nos EUA, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao presidente eleito Barack Obama um documento dizendo que, ao contrário de impor uma regulamentação mais dura ao sistema financeiro, é preciso fazer uma reforma que coloque as finanças a serviço da produção.
Lula reuniu-se na terça-feira com o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, e o autorizou a escrever um documento intitulado Usando a Crise para Reorganizar os Mercados e a enviá-lo para a equipe econômica de Obama. A tese, de oito páginas, chegou aos EUA na quarta-feira.
O documento diz que o Brasil pretende participar mais do debate internacional e sugerir a outras nações soluções para os problemas econômicos causados ¿pela desproporcional correlação de forças entre o sistema financeiro e a economia real¿. Assim, Lula deve aproveitar todos os encontros que tiver daqui para frente com chefes de Estado para insistir na tese de que é preciso reorganizar o sistema financeiro mundial, adequando-o à produção.
PROPOSTAS
Para Mangabeira, a economia brasileira desenvolveu-se em resposta a crises internacionais, mas nunca se aproveitou das oportunidades criadas por conflitos, como ocorreu com a economia americana durante a 2ª Guerra. ¿Temos o que apresentar nesse momento de economia de guerra sem guerra¿, disse o ministro.
Mangabeira faz o seguinte diagnóstico sobre o ambiente político atual. ¿Nós (Brasil) contamos com imensa simpatia no mundo. Ninguém é contra nós. Não carregamos o ônus de regimes autoritários, como os que dominam a China e a Rússia. Então, temos condições singulares para desempenhar o papel de protagonistas na crise. Mas não basta querer. É preciso ter idéias. É o momento de um grande esforço de formulação.¿
Segundo o ministro, estudos têm demonstrado que empresas organizadas utilizam pelo menos 80% de capital próprio, proveniente dos lucros, para autofinanciar-se. ¿Se a produção é, em grande medida, autofinanciada, qual é a finalidade de todo o dinheiro em bancos e bolsas de valores?¿, pergunta ele.
De acordo com Mangabeira, a resposta está na tentativa de usar esses recursos para mobilizar a poupança acumulada da sociedade para dar apoio a novas iniciativas e financiar o consumo daqueles que não têm dinheiro para comprar o que querem consumir.
CRISE
O problema, segundo Mangabeira, é que apenas uma pequena parte do capital participa do financiamento da atividade produtiva da economia real. Com isso, a parte que sobra deixa de servir a uma especulação de mercado para voltar-se à especulação pela mera especulação.
No estudo, Mangabeira afirma que o Brasil tem por objetivo fazer uma provocação ao novo governo e ao mundo, para que todos pensem numa forma de reorganizar os mercados.
¿A crise deve servir como um convite para a reforma das disposições que regem a relação entre o financiamento e a economia real. O objetivo da reforma deverá ser o de reforçar os laços entre a poupança e a produção¿, disse.
Por fim, Mangabeira diz que é preciso entender que um debate desse nível não é um projeto de lei que pode ser ou não aprovado. ¿Com os americanos, podemos construir uma resposta à crise.¿