Título: O que Lula e Obama podem fazer
Autor: Sotero, Paulo
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/12/2008, Espaço Aberto, p. A2

O desinteresse da grande imprensa americana pela decisão da Organização Mundial de Comércio (OMC) de congelar as negociações da Rodada Doha, na semana passada, atesta a perda de espaço do comércio na agenda política dos Estados Unidos, em meio à pior crise econômica que o país vive em mais de 70 anos. O New York Times ignorou as negociações em Genebra. Três dias antes da confirmação do colapso, oficializado na sexta-feira, dia 12, o Wall Street Journal antecipou o desfecho e abandonou o assunto. O Washington Post limitou-se a um breve relato, no sábado, no qual destacou a afirmação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, criticando ¿a falta de flexibilidade¿ dos EUA.

O Post e os demais jornais que dedicaram breves notas de agências ao tema não registraram a declaração em que o chanceler brasileiro, ressalvando que dava ¿opinião pessoal¿, fez crítica velada ao presidente eleito Barack Obama por ele ¿se esconder atrás de formalidades¿ da transição de governo e não dar um sinal de apoio à conclusão da rodada ainda este ano, deixando assim de assumir suas ¿responsabilidades¿ de líder. Naturalmente, a declaração, reproduzida pela imprensa brasileira, causou perplexidade em Washington. ¿Por que começar (o diálogo com a nova administração) com um ataque desnecessário?¿, perguntaram assessores democratas.

Nos meios oficiais houve reação mais forte à descrição que Amorim fez dos procedimentos legais da transição de governo nos EUA como ¿formalidades¿, na mesma declaração em que citou como exemplo a transição entre os governos de Fernando Henrique e Lula, cuja receita, aliás, Brasília aprendeu em Washington. Os ecos do desprazer que suas afirmações causaram nas equipes de Obama e George W. Bush devem ter chegado ao chanceler, pois na sexta-feira, em nova entrevista, ele disse ter ficado ¿desapontado¿ com a interpretação que a imprensa dera às suas palavras. Amorim disse que não entrou em ¿jogo de acusação¿, e, sim, que fez um pedido ¿positivo¿ de sinalização de Obama para adiantar a negociação na OMC.

É improvável que o novo presidente americano faça tal sinalização nos primeiros meses de seu governo, quando estará ocupado em conter a catástrofe econômica herdada de Bush e em administrar questões domésticas e internacionais mais urgentes do que a conclusão da Rodada Doha, por positiva que esta possa ser, mais adiante, para a retomada da economia americana e mundial. É igualmente duvidoso que a nova administração venha a ter posições diferentes da atual quando estiver pronta a reengajar os EUA nas negociações na OMC - algo que só deverá ocorrer quando o panorama econômico se desanuviar, os temas ambientais e trabalhistas ganharem mais espaço na OMC e a administração aprovar reformas domésticas nas áreas da saúde, educação e emprego capazes de atenuar o sentimento de insegurança econômica que faz hoje da liberalização do comércio tema politicamente radiativo em Washington.

Esse difícil panorama testará a expectativa existente nos dois países de que Lula e Obama, ambos líderes de perfil progressista, saberão manter as relações entre o Brasil e os EUA em nível pelo menos tão cordial e correto quanto as que o presidente brasileiro cultivou com o ultraconservador George W. Bush. Ele recomenda também que os dois presidentes usem as três reuniões que deverão ter nos primeiros cem dias da nova administração americana para ampliar a pauta efetiva dos assuntos bilaterais para áreas nas quais os interesses brasileiros e americanos são convergentes.

Lula e Obama têm alinhavado um encontro em meados de março, quando o presidente brasileiro irá a Nova York para participar de uma conferência com empresários. Eles estarão juntos novamente um mês depois, na Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, e no final de abril, na segunda plenária de chefes de governo do Grupo dos 20 (G-20), na Inglaterra. Enquanto seus assessores exploram maneiras de recolocar Doha nos trilhos, Lula e Obama poderão apostar em pelo menos três temas promissores.

O compromisso de cortar as emissões dos gases do efeito estufa do Brasil por meio de uma dramática redução do desmatamento, que o governo brasileiro anunciou há dias, aponta para a adoção de uma política ambiental proativa compatível com um país que tem a mais limpa matriz energética do planeta. Se for para valer, ela abrirá amplo espaço para a cooperação com a nova administração americana, que vê na redução da dependência dos EUA de combustíveis não-renováveis o caminho não apenas para a retomada do crescimento sustentável, como também uma bandeira para restabelecer a liderança internacional americana.

A política de cooperação do Brasil na África, prioridade do governo Lula, também oferece campo para ações conjuntas com os EUA, já testadas com sucesso nos últimos anos em programas que envolveram o aperfeiçoamento do processo legislativo na Guiné-Bissau e o combate à malária em São Tomé.

O reconhecimento crescente por parte de Washington do papel estabilizador do Brasil na América do Sul e no Caribe chama a atenção para outra área propícia à cooperação. A exemplo da ação estabilizadora do Brasil no Haiti, que atende também a interesses dos EUA, soma-se agora o desafio da reintegração gradual de Cuba nas Américas. Sem poder mexer no embargo, que é lei, Obama sinalizou que reverterá medidas de Bush que limitaram as remessas de dinheiro e viagens a Cuba. A reação favorável de democratas americanos ao convite de Lula ao presidente cubano, Raúl Castro, para participar da reunião de cúpula América do Sul-Caribe, esta semana, em Salvador, sugere uma área na qual os interesses brasileiros e americanos são convergentes e podem ser atendidos por iniciativas como projetos de produção de etanol de cana-de-açúcar em Cuba para o mercado interno e dos EUA.

Paulo Sotero é diretor do Instituto Brasil do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington