Título: Rios e subsolo também serão mapeados
Autor: Escobar, Herton
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/12/2008, Vida&, p. A28
Na superfície, tecnologia de radar permitirá calcular biomassa florestal
O último grande esforço de cartografia da Amazônia foi o projeto Radam, concluído no início da década de 80. Na ocasião, 65% da região foi mapeada na escala de 1 para 100 mil (1:100.000) - o que significa que cada 1 centímetro no mapa corresponde a 1 quilômetro no mundo real.
¿Os 35% que sobraram são o vazio cartográfico, que vamos mapear agora¿, explica o general Armindo Fernandes, gerente-geral do projeto Cartografia da Amazônia. As únicas cartas disponíveis para essas áreas são mapas simples e de pouca precisão (sem altimetria), em escalas de até 1:1 milhão. O projeto vai detalhar tudo numa escala mínima de 1:100.000, podendo chegar a 1:50.000 ou até 1:25.000, em áreas consideradas de alta relevância - como as fronteiras.
O projeto, de R$ 350 milhões, é financiado pelo governo federal, coordenado pelo Censipam e executado pelas Forças Armadas e pelo Serviço Geológico do Brasil, com tecnologia da OrbiSat. Além da cartografia de superfície, também serão mapeados o subsolo - em busca de riquezas minerais - e os rios, que são a verdadeira malha viária da Amazônia, por onde escoam 95% das exportações da região.
Os primeiros sobrevôos foram feitos em setembro, no focinho da Cabeça do Cachorro. Até agora, 50 mil km2 foram imageados. Para mapear toda a região (258 mil km2), os dois aviões da OrbiSat percorrerão 1.300 linhas de vôo, com 115 km de extensão e 14 km de largura cada uma, num total de 1.300 horas de vôo.
Além de fornecer uma visão muito mais precisa da topografia, o trabalho permitirá mapear diferentes composições vegetais e calcular a quantidade de biomassa - matéria vegetal - presente em cada região. Isso graças ao uso simultâneo de duas freqüências de radar, uma que chega até a copa das árvores (banda X) e outra que chega até o solo (banda P). ¿Pela diferença entre as duas podemos calcular quanto de biomassa existe em uma determinada área¿, explica o general-de-brigada Pedro Ronalt Vieira, diretor do Serviço Geográfico do Exército.
Contrário à percepção de que a Amazônia é um ¿tapete verde¿ de floresta homogênea, o bioma amazônico é formado por um mosaico de ecossistemas altamente diferenciados: florestas de mata firme, florestas inundadas, campos, savanas, bambuzais, palmeirais, etc. Saber quanto de biomassa - e, conseqüentemente, quanto de carbono - existe em cada lugar é essencial para entender o papel da Amazônia no futuro climático do planeta.
¿O principal usuário será o Exército, mas os mapas serão importantes para várias áreas do governo¿, diz o diretor do Censipam, Marcelo Lopes.
No caso do levantamento geológico, o setor privado vai investir R$ 1,1 bilhão no projeto, de olho nas riquezas minerais que possam estar no subsolo da floresta. Para a atualização das cartas náuticas - essenciais para a navegação - , serão construídos cinco navios hidrográficos, que ficarão a serviço da Marinha.
O repórter viajou a convite do Censipam