Título: A recessão japonesa
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/12/2008, Notas e Informações, p. A3

No terceiro trimestre deste ano, o PIB japonês diminuiu 0,5% em relação a igual período de 2007. É uma queda maior do que se esperava - 0,1% - e projeta, para 2008, uma contração de 1,8%, bem mais do que a redução de 0,4% que estava sendo estimada até algumas semanas atrás.

Há pouco mais de um mês, quando anunciou um programa que inclui 5 trilhões de ienes (cerca de US$ 51 bilhões) em novos gastos do governo para estimular a economia, o primeiro-ministro Taro Aso alertou que "uma tempestade violenta como só se vê a cada 100 anos, está se formando". Tinha razão - e milhares de brasileiros que vivem no Japão sentem diretamente as severas conseqüências da recessão.

Nem o plano de Aso, nem a decisão tomada há três semanas pelo Banco do Japão de manter o juro básico em 0,3% ao ano - nível para o qual tinha sido reduzido em outubro - estão conseguindo convencer a população a consumir. A crise da década de 1990, quando a economia japonesa passou por um longo período de recessão, deixou evidente que, em momentos de incerteza, o japonês prefere poupar a consumir, mesmo que a poupança tenha, como tem agora, rendimento negativo. Não perdeu o hábito.

Esse comportamento retardou a recuperação na década de 90. A situação se repete. "Vai levar um bom tempo para que retornem as condições de recuperação da economia japonesa", disse o presidente do banco central japonês, Masaaki Shirakawa, antevendo o aprofundamento da recessão e sua longa duração.

As vendas internas de automóveis caíram 27% em novembro, a maior queda em 39 anos. Em todos os ramos industriais, as empresas cortam custos e reduzem o pessoal. As grandes montadoras já demitiram 9 mil trabalhadores. A Sony anunciou o corte de 5% de sua força de trabalho, o que corresponde a 8 mil demissões. O índice de desemprego no país, que era de 3,7% em outubro, deve chegar a 6% até o fim do ano.

Esta é uma má notícia para a economia mundial, pois se a segunda maior potência econômica do planeta demonstrasse maior capacidade de resistência à crise, provavelmente seria menos difícil para o resto do mundo sair da recessão. Os dados divulgados pelo governo de Tóquio mostram, porém, que, em vez de acelerar, o Japão freia a economia mundial. Outras economias asiáticas que também poderiam amortecer os efeitos da crise mundial, como a chinesa e a coreana, registram queda das exportações para o Japão e para os demais países industrializados, das quais dependem diretamente para crescer.

Milhares de brasileiros estão sendo atingidos por essa situação. São os dekasseguis, os descendentes de japoneses que, a partir da década de 1980, foram buscar no outro lado do mundo melhores oportunidades de emprego. Em 1990, havia 56 mil brasileiros trabalhando no Japão; em 1998, eram 222 mil; no ano passado, 317 mil.

Eles têm contribuído para equilibrar as contas externas do Brasil. Em 2007, enviaram para o Brasil US$ 647,4 milhões, de acordo com registros do Banco Central. Neste ano, até outubro, enviaram US$ 591 milhões. O volume de dinheiro enviado pelos dekasseguis é maior do que o registrado no Banco Central, pois muitos fazem remessas pelo correio ou trazem consigo boa parte do que pouparam no Japão quando retornam ou quando visitam seus familiares no Brasil.

Para o dekasseguis, o cenário piorou muito - e rapidamente. Como se sabe, em momentos de crise no Japão, os primeiros trabalhadores que perdem o emprego são os estrangeiros. Assim, entre eles o índice de desemprego cresce mais depressa. São visíveis as conseqüências do encolhimento do mercado de trabalho japonês para os estrangeiros. Até 2007, era difícil encontrar passagem nos vôos que saíam de São Paulo para o Japão. Agora, a espera por uma passagem para a viagem inversa, do Japão para o Brasil, pode chegar a dois meses. Já há registros de brasileiros sem-teto em algumas cidades japonesas onde é maior a concentração de dekasseguis. Muitos desses sem-teto sobrevivem à custa do auxílio de instituições beneficentes e religiosas.