Título: Liderança contestada
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/12/2008, Notas e Informações, p. A3
Reagindo a comentários segundo os quais a Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc), que reuniu líderes de 33 países na Costa do Sauípe, Bahia, teria atestado ¿a liderança indiscutível do Brasil¿, conforme avaliou, por exemplo, o New York Times, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse que o Brasil não é o único país latino-americano a exercer ¿uma liderança importante¿ na área. Mas nem Chávez nem os observadores a quem criticou implicitamente parecem ter compreendido a peculiaridade do papel exercido pelo Brasil nesse convescote de auto-afirmação regional, realizado ao som da retórica do antiamericanismo. Mais uma vez ficou demonstrado, com efeito, que a propalada liderança brasileira não é inconteste. No entanto, é suficientemente robusta para funcionar como elemento moderador em um evento que, de outro modo, ficaria à mercê das bravatas inconseqüentes do bolivarianismo.
Por diferenças culturais em relação aos padrões prevalecentes na região e por sua maior maturidade política - o pano de fundo da inclinação pessoal do presidente Lula pelo pragmatismo, ressalvadas as concessões oratórias em contrário -, o Brasil adotou no Sauípe posições cujo mérito consistiu em evitar que o nível da reunião baixasse ainda mais do que já havia baixado até ali. Por exemplo, ao mesmo tempo que, para andar no mesmo passo do batalhão, celebrava o distanciamento latino-americano dos Estados Unidos, depois de ter-se queixado, horas antes, do distanciamento dos EUA da America Latina, Lula neutralizou no nascedouro a grotesca proposta apresentada pelo boliviano Evo Morales na sessão plenária da Cúpula de que todos os 32 governos da área retirem os seus embaixadores em Washington se o próximo presidente Barack Obama não levantar o embargo a Cuba dentro de um prazo que a Cúpula estabeleceria. O brasileiro, na entrevista coletiva final, se disse ¿mais cuidadoso¿ quanto à idéia do prazo, e nem sequer tomou conhecimento do resto da patacoada.
As palavras, porém, têm a sua força. Ao condenar a ¿subserviência¿ aos Estados Unidos, ainda que apenas para não destoar de seus pares, Lula associa o nome do país que governa, e do qual aufere seu prestígio internacional, ao respaldo de uma visão infantil, birrenta de soberania nacional. É deplorável, mas dificilmente ele poderia escapar dessa armadilha embutida na própria decisão de patrocinar o encontro. Desde o primeiro momento, o Itamaraty não podia ignorar que o ponto de aglutinação da Cúpula, ou mesmo a sua razão de ser, seria o negativismo, a convergência do contra, a malhação dos Estados Unidos. Para isso, fabricou-se no Sauípe uma versão ¿alternativa¿ - no sentido que se dá ao termo hoje em dia - à Organização dos Estados Americanos (OEA), criada em 1948 sob os primeiros ventos da guerra fria, mas forjada na solidariedade continental da luta contra o nazi-fascismo. Trata-se da Organização dos Estados da América Latina e do Caribe (Oealc), ou seja, as Américas menos os EUA e o Canadá, a ser estruturada até 2010. Não é de levar a sério.
A região é mais do que pródiga em pronunciamentos em prol da integração e menos do que apta a manter em pé os seus organismos supranacionais. Se o Mercosul e o Pacto Andino, que reúnem, cada qual, um punhado de países, não funcionam, que dirá uma entidade com 33 membros - que pouco têm em comum além da situação no mesmo continente. Muito menos interesses nacionais, como, aliás, ficou demonstrado na reunião de Sauípe. De resto, não pode ter futuro uma instituição multilateral concebida para se opor a algo, no caso os EUA, e sem nenhum objetivo concreto positivo. Salvo Cuba, os países caribenhos, que aritmeticamente serão a maioria dos sócios desse clube do anti, de tal modo dependem do intercâmbio comercial com a América do Norte que bloquearão qualquer iniciativa substancial (supondo que a Oealc seja capaz disso) de confronto com o ¿império¿. Não há de ter sido por outra razão que os seus governantes entraram mudos e saíram calados da conferência na Bahia.
O presidente Lula comemorou o fato de todos os países da América Latina e do Caribe se reunirem pela primeira vez em mais de 200 anos sem tutelas alienígenas. ¿Um dia histórico¿, afirmou. Resta saber se a proeza servirá a algo além de discursos.