Título: Sei que as UPAs não resolvem tudo
Autor: Leite, Fabiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/12/2008, Vida &, p. A13
José Gomes Temporão: ministro da Saúde; ms, para ministro, novo modelo ajudará a resolver o atendimento, que ele próprio compara a um calvário para os pacientes
Lígia Formenti, BRASÍLIA
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, está retomando suas bandeiras. Depois de um período de silêncio - adotado diante da crise provocada após ter acusado a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) de ser corrupta e ineficiente -, ele volta a defender mais recursos para a saúde e a aprovação de projetos como o da Fundação Estatal de Saúde. Ele diz que a relação com parlamentares avançou. ¿A gente vai aprendendo a conviver¿, disse ao Estado, antes de anunciar um grande investimento na construção das Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) no País. ¿Não é uma solução mágica¿, admite. Mas, para ele, pode ajudar a resolver um sistema que ele próprio compara a um calvário. ¿É a peregrinação de serviço em serviço.¿
Por que investir nesse sistema e não em outros que já existem?
Estou consciente de que esse sistema não vai resolver tudo. Ele não é milagroso, mas a idéia é que tais unidades sejam criadas diante de algumas condições. É preciso que o gestor se comprometa a oferecer cobertura do Programa Saúde da Família (PSF) a pelo menos 50% da população e que implante o Samu. Isso porque o Samu implica regulação do atendimento de urgência domiciliar.
Por que não investir nas unidades básicas?
A resolutividade é menor. Uma pessoa que passa mal de noite, com o posto fechado, vai para o hospital. Aconteceu com minha empregada, que é hipertensa. Passou mal, foi para a UPA. A pressão foi estabilizada, mas o tratamento não pode acabar. Ela tem de ir para um PSF, verificar se o remédio é adequado, ver se precisa mudar a dieta.
Mas ela foi ao PSF?
Não, porque no Botafogo, onde moro, não há PSF. Foi atendida por um médico amigo meu. O governador outro dia levou o filho na UPA de Botafogo. Isso é curioso, porque a classe alta e a classe média estão usando o serviço. É uma maneira de o serviço público mostrar que pode aliar qualidade e eficácia.
Quanto tempo o senhor acha que vai levar para essas UPAs ficarem sobrecarregadas como os demais serviços de saúde?
Se você aliar a cobertura do Programa Saúde da Família com a UPA e a melhoria do investimento hospitalar, isso não vai acontecer. É preciso trabalhar na perspectiva de rede integrada: apoio ambulatorial, UPAs e Samu. Quando se tem um conjunto de equipamentos integrados, é possível alcançar melhor eficiência no sistema.
Como ter tudo isso se há falta de profissionais?
Eu tenho um projeto, o da Fundação Estatal. Ele já passou por votações, precisa ir para plenário. Não desisti. O que serve de consolo é que outros Estados tomaram a iniciativa e implantaram a modalidade. Acho que é a saída para melhorar a qualidade, pois a proposta exige dedicação do médico mediante boa remuneração. Não existe medicina de qualidade sem vínculo. É bom para o paciente, é bom para o médico. O que é o calvário padrão do cidadão brasileiro? É a peregrinação de serviço em serviço. E o médico que atendeu ontem não está hoje. Não tem seguimento, não há vínculo, não há responsabilidade.
O projeto sofre muitas críticas.
Atribuo isso a uma questão ideológica. Os argumentos contrários não resistem a uma análise factual. Para esse o grupo, o Estado tem de ser o empregador dentro de uma estrutura rígida, com regime estatutário. A questão que está por trás é: qual é o papel do Estado? Essa é a questão central.