Título: Israel avança sobre zonas urbanas
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/01/2009, Internacional, p. A7

Soldados israelenses e militantes do Hamas entraram ontem pela primeira vez em combates frente a frente no interior do perímetro urbano da Cidade de Gaza - capital da Faixa de Gaza - com o avanço do Exército de Israel sobre zonas urbanas em uma operação militar que dividiu o território palestino em três partes. Uma ofensiva diplomática, liderada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, tentou obter ontem um cessar-fogo imediato, mas não conseguiu convencer Israel e o Hamas a suspender os ataques.

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A ação de Israel foi acompanhada de ataques aéreos que servem de apoio às forças terrestres. O Hamas persistiu com o lançamento de foguetes contra o território israelense, atingindo as cidades de Ashkelon e Sderot, sem deixar vítimas.

Desde o início da ofensiva de Israel, dia 27, pelo menos 541 palestinos morreram. Mais de 30 palestinos, entre eles várias crianças, foram mortos ontem.Mais de 2 mil ficaram feridos até agora. Cinco israelenses morreram desde o início do conflito, entre eles um soldado morto no domingo nos combates da Faixa de Gaza. A TV do Catar Al-Jazira chegou a anunciar, citando líderes do Hamas, a morte de mais três soldados de Israel em troca de tiros, mas a informação não foi confirmada.

Em pesados combates terrestres, os militares de Israel tomaram ontem três prédios de seis andares nos subúrbios de Gaza, ocupando posições nas coberturas, de onde podem observar a movimentação de militantes do Hamas. Os moradores foram trancados em seus quartos e os soldados retiraram seus telefones celulares. A principal estrada da Faixa de Gaza também está sob controle israelense.

No bairro de Chuhaya, a leste de Gaza, houve troca de tiros entre soldados e membros do Hamas. Pelo menos cinco militares israelenses ficaram feridos. A Força Aérea de Israel bombardeou túneis usados pelo grupo para contrabandear armamentos do Egito.

A fase terrestre da operação, que começou no sábado, está prosseguindo de acordo com o plano, afirmou ontem o porta-voz militar Avi Benayahu, acrescentando que foram destruídas localidades para lançamento de foguetes e muitos militantes foram mortos.

Nos hospitais da Faixa de Gaza, a maior parte das vítimas atendidas era civil, incluindo os 13 membros de uma mesma família que morreram em um bombardeio israelense contra a casa deles em um campo de refugiados. Três irmãos também foram atingidos quando um necrotério improvisado numa tenda foi alvejado por Israel.

O ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, disse que o Hamas sofreu um duro golpe de Israel e acrescentou que os israelenses têm de atingir os seus objetivo e, ¿portanto, a operação continuará¿.

Abu Ubeida, porta-voz do Hamas, desafiou Israel e disse que os militantes do grupo estarão esperando os israelenses ¿em todas as ruas, em todos os becos e em todas as casas¿. O grupo Jihad Islâmica também tem auxiliado o Hamas nos combates contra os israelenses. Um dos objetivos do grupo palestino é capturar militares de Israel para usá-los como moeda de troca no futuro - o soldado Guilad Shalit está seqüestrado há dois e meio.

O analista militar Roni Bart, do centro de segurança nacional da Universidade de Tel-Aviv, disse ao Estado que o número de baixas no lado israelense tende a crescer com a entrada dos soldados em áreas mais populosas.

¿Foi o que aconteceu com os americanos no Iraque. Na primeira parte da operação, obtiveram sucesso, mas, quando tiveram de controlar as ruas das cidades iraquianas, passaram a enfrentar uma resistência maior. O mesmo deve ocorrer se os israelenses permanecerem por muito tempo em Gaza¿, afirmou.

A estratégia, diz o professor, é o Exército ocupar espaços geográficos de onde possa lançar incursões rápidas contra o grupo palestino. Além disso, a divisão da Faixa de Gaza busca evitar que os militantes que estejam no norte do território sejam reabastecidos com armamento proveniente do sul, que é contrabandeado por túneis escavados até o Egito.

Segundo Israel, a ofensiva militar foi iniciada após o Hamas violar uma trégua vigente havia seis meses. O objetivo é eliminar a capacidade de o grupo lançar foguetes contra o sul do país - dezenas foram lançados ontem e um deles atingiu um jardim da infância em Sderot, sem deixar vítimas, pois as aulas estavam suspensas. O Hamas acusa Israel de ter desrespeitado a trégua antes ao matar seis militantes em novembro.

A Faixa de Gaza vive uma crise humanitária. Faltam alimentos, remédios, água e gás para o aquecimento das casas ao longo do inverno. O fornecimento de energia elétrica foi interrompido em muitas áreas. Um porta-voz da ONU disse que o secretário-geral, Ban Ki-moon, informou que a situação em Gaza ¿agravou-se dramaticamente¿ nas últimas 24 horas. Israel é acusado de não permitir o envio ajuda humanitária para aliviar a crise no território, que tem 1,5 milhão de habitantes em uma faixa costeira de 40 km de comprimento por 10 km de largura. Os israelenses, que têm o controle aéreo e marítimo de Gaza, dizem que já liberaram a entrada de dezenas de caminhões com ajuda. O Egito mantém a sua fronteira fechada.