Título: Região não terá paz com invasão e bombardeios
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/01/2009, Internacional, p. A9
Ontem bem cedo, subi para o terraço de minha casa para ver o sol nascer. Colunas de fumaça negra subiam no horizonte de Gaza, mostrando de maneira inquietante que a ofensiva por terra das tropas israelenses já havia infligido mais sofrimento indiscriminado ao povo desta cidade palestina.
Refleti sobre a bola de fogo, fruto do total fracasso da tentativa de se chegar a um acordo e, até certo ponto, no plano internacional, que caiu no colo dos civis de Gaza. No prazo de segundos, o som fundo e apavorante do bombardeio que vinha do mar me obrigou a descer rapidamente.
Ao meio-dia de domingo, depois de cerca de 12 horas de incursão, as tropas israelenses chegavam às imediações de Jabaliya - a cidade e o campo de refugiados com uma população de 200 mil pessoas - enquanto helicópteros Apache disparavam projéteis de grande calibre sobre o campo, aos quais se somava o fogo da artilharia. Mas a Cidade de Gaza, onde moro, tampouco é um refúgio seguro, pois fica a apenas 8 quilômetros de Jabaliya, e a 3 quilômetros dos combates do lado leste.
Nove dias depois do início da guerra, e após 800 incursões sobre Gaza, muitas vezes parece que os hangares da Força Aérea israelenses devem estar vazios, enquanto seus aviões martelam incessantemente a cidade, acabando com os sobreviventes.
Mas a capacidade de recuperação destas pessoas é realmente notável. O homem de meia idade que me ajuda em casa apareceu ontem ao meio-dia, trazendo más notícias. Quando saía de casa, em meio a um tiroteio esporádico, no campo de Jabaliya, viu uma menina de 10 anos levar uma saraivada de tiros de grande calibre de um helicóptero Apache em cima da casa. O pai gritava: tentara segurar os filhos dentro da casa, mas ela quis tomar um pouco de sol.
Neste momento, meus vizinhos pensam única e exclusivamente em sua sobrevivência pessoal: como conseguir comida; como atravessar a rua; como ver se os parentes estão a salvo a poucas centenas de metros; como conseguir algum dinheiro para comprar coisas básicas; será que vou despertar com um soldado na porta da minha casa; será que vou poder viver uma vida normal? Quanto à política, eles não estão pensando nas disputas internas entre o Fatah e o Hamas - deixaram de lado todo espírito partidário. Só pensam na desumanidade que Israel nos está infligindo.
Não sabemos quanto tempo ainda as linhas que alimentam as comunicações de Gaza pela Internet sobreviverão. A perspectiva de perder as últimas linhas de comunicação com o mundo exterior é extremamente preocupante, principalmente porque a maior parte das agências de notícias e os diplomatas foram impedidos de testemunhar a carnificina.
Milhares de pessoas já pereceram ou foram feridas. Mas o espírito dos sobreviventes não morrerá, pois se isto acontecer, também perecerá a verdade de sua tragédia.
Assim como outras pessoas, não tenho mais dinheiro para comprar coisa alguma, mesmo que tivesse coragem para sair de casa. Raciono o pão, legumes, verduras e pedaços de queijo. Alguns tabletes de chocolate me ajudam a ficar alerta e a enganar a fome. Tenho mais sorte do que muitos outros, que estão tão pobres que não têm comida nenhuma.
O dono da mercearia diz que o chocolate foi trazido pelos túneis no sul da Faixa de Gaza, o mundo subterrâneo para o qual os habitantes de Gaza foram encurralados na tentativa de driblar o cerco prolongado imposto por Israel. Durante muitos meses, Israel pareceu fechar os olhos aos túneis, porque contribuíam para reduzir a pressão sobre sua estratégia de fechar os postos de fronteira de Gaza na maior parte dos dias. Ao mesmo tempo, algumas pessoas na cidade passaram a se dedicar ao mercado negro. Mas muitos destes túneis agora foram destruídos pelos bombardeios israelenses.
É difícil prever as consequências desta guerra. Se o Conselho de Segurança da ONU tivesse pressionado Israel a expor claramente suas intenções, agora talvez tivéssemos um cessar-fogo. Mas do jeito que as coisas estão, Gaza provavelmente terá pela frente vários anos de mais desespero e instabilidade.
Será extremamente difícil para os palestinos, particularmente para os habitantes de Gaza, reconstruir e aprimorar as instituições e os serviços públicos. Mas talvez seja este mesmo o objetivo da política de Israel contrária à paz: o fim da tenacidade do povo de Gaza em querer a chance de uma vida pacífica e digna. Não é este o caminho da paz.
*Sami Abdel-Shafi, sócio de uma empresa de consultoria, escreveu este artigo da Faixa de Gaza, onde vive com a família