Título: Ofensiva agrava pesadelo no território
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/01/2009, Internacional, p. A9
Isolamento político e econômico arrasa a vida em áreas palestinas
Gustavo Chacra, Sderot, Israel
A crise humanitária na Faixa de Gaza se acentuou com a operação terrestre de Israel. Em uma das regiões mais densamente povoadas do planeta, os 1,5 milhão de palestinos estão isolados. Israel e Egito fecharam as suas fronteiras e não permitem a entrada de ajuda levando suprimentos básicos, como alimentos e remédios. O controle aéreo e marítimo do território também está nas mãos dos israelenses.
A ligação com o mundo externo se dá apenas por meio de telefones e da internet, além de poucos jornalistas - como os da rede de TV Al Jazeera - que estão baseados no território. O contato por telefone é precário, pois a maior parte da população de Gaza usa celular e os moradores têm economizado a bateria com o temor de que, com as frequentes interrupções de energia elétrica, não possam recarregá-los e usá-los em momentos de emergência.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirmou que suas equipes médicas foram impedidas por Israel de entrar na Faixa de Gaza pelo terceiro dia seguido. A ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, nega que exista uma crise humanitária em Gaza e afirma que a ajuda tem entrado normalmente, no que foi desmentida por um porta-voz da ONU no território palestino.
Jornais e TVs israelenses têm exibido pouco sobre o cenário dentro da Faixa de Gaza. A única jornalista de Israel baseada no território era a repórter do jornal Haaretz Amira Hass, mas ela retornou a Israel em novembro. Nas partes árabes de Jerusalém, a população palestina sintoniza na Al Jazeera.
SITUAÇÃO INSUPORTÁVEL
Na Faixa de Gaza, as pessoas têm permanecido nas suas casas a maior parte do tempo, saindo apenas em casos de emergência como, por exemplo, comprar pão em padarias que tinham longas filas ontem. ¿Antes da ofensiva, era o bloqueio que nos matava. Esta situação é insuportável¿, disse Yehia Anin Husein. Samir Hajo acrescentou para agência de notícias France Presse que seus filhos estão em ¿pânico pela intensidade dos bombardeios que não param ao longo da noite¿. Lubna Karam disse que sua família tem passado as noites em um corredor e vem sendo obrigada a se alimentar de comida fria devido à falta de energia e gás.
Gaza é um território minúsculo, totalmente dependente da ajuda econômica internacional. Como tem as fronteiras fechadas, não pode exportar seus principais produtos, como flores e frutas. Tampouco pode importar. Apesar de Israel ter desmantelado seus assentamentos, retirando as suas tropas e cerca de 8.000 colonos unilateralmente em 2005, nunca os israelenses deixaram de ter controle total sobre o espaço aéreo e marítimo de Gaza. A fronteira com o Egito estava aberta até o Hamas tomar o poder. A maior parte dos armamentos do grupo entram no território por túneis construídos na divisa com os egípcios.
Não há praticamente emprego para os moradores de Gaza, que está em recessão há anos. A taxa oficial de desemprego é de cerca de um terço da população, mas estimativas dizem o número pode superar a metade dos habitantes, que enfrentam o inverno sem gás para o aquecimento de suas casas. Com a tomada do poder pelo Hamas, os moradores passaram a ter menos liberdade. Qualquer crítica ao grupo pode ser vista como colaboração com Israel ou o Fatah, correndo o risco de punição com a morte. As mulheres também passaram a seguir mais à risca o islamismo, já que o Hamas é pouco tolerante se comparado aos seculares do Fatah.
RELATOS
Samir Hajo Morador da Faixa de Gaza
¿Meus filhos estão em pânico pela intensidade dos bombardeios que não param ao longo da noite¿
Yehia Anin Husein Civil palestina em Gaza
¿Antes da ofensiva, era o bloqueio que nos matava. Esta situação é insuportável¿