Título: O polêmico plano de Obama
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Fonte: O Estado de São Paulo, 13/01/2009, Notas e Informações, p. A3
Considerado o mais complexo pacote legislativo da história dos Estados Unidos, o plano de estímulo à economia americana anunciado na última quinta-feira pelo futuro presidente Barack Obama tem sido criticado ora por ser excessivo, ora por ser insuficiente. A polêmica antecipa as dificuldades de sua tramitação, embora o Partido Democrata tenha conquistado nas eleições de novembro ampla maioria nas duas Casas do Capitólio e apesar das exortações de Obama pela aprovação rápida do conjunto de medidas que custarão inéditos US$ 775 bilhões - ou mais. ¿Cada dia que esperarmos ou nos arrastarmos, mais americanos perderão o seu emprego¿, advertiu ele no mesmo dia em que se anunciou a taxa de desemprego no país em dezembro. O retrocesso chegou a 7,2%, o pior resultado desde 1993, contribuindo para fazer de 2008 o ano mais calamitoso para o mercado de trabalho americano desde 1945, com o fechamento de 2,6 milhões de vagas.
Obama insistiu uma vez e outra no imperativo de se votar com urgência o chamado Plano Americano de Recuperação e Estímulo, cuja divulgação completa era esperada para esta semana. ¿Não acho que seja tarde demais para mudar de curso, mas será tarde se não tomarmos medidas dramáticas o mais depressa possível. (Do contrário) nossa nação se afundará mais profundamente numa crise que, em determinado ponto, poderemos não ser mais capazes de reverter¿, instou o presidente eleito, no mais sombrio de seus pronunciamentos sobre a crise. ¿Se nada for feito, essa recessão vai se prolongar por anos. O índice de desemprego poderá chegar a dois dígitos.¿ Naturalmente, a opção por não fazer nada inexiste, mas não está claro tampouco se os apelos de Obama - e as tratativas de sua equipe junto às lideranças partidárias - conduzirão a um consenso sobre as propostas essenciais do controvertido pacote.
O plano se assenta em cortes de impostos e em investimentos públicos para vários setores. Nessa ¿primeira fase da redução de impostos para a classe média¿, prometida na campanha, o governo dará uma bonificação de US$ 500 per capita para os contribuintes assalariados e benefícios fiscais da ordem de US$ 150 bilhões para empresas com prejuízos em 2008 e 2009. Os investimentos focalizarão a infraestrutura, os serviços de saúde e educação, e fontes alternativas de energia (a meta, nesse ponto, é duplicar a oferta nos próximos três anos). Nem Obama contesta que o pacote provocará aumento expressivo do déficit orçamentário, já projetado em US$ 1,2 trilhão para o corrente ano fiscal. ¿Obama prometeu fazer tudo de uma vez¿, escreve o colunista David Brooks, do New York Times, alertando para a ¿audaciosa autoconfiança¿ da presidência Obama. ¿O problema (do plano) é a abrangência das políticas escolhidas, fenomenalmente difíceis de implementar, ainda mais em semanas.¿
No mesmo jornal, o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, se diz decepcionado com o pacote por razões diametralmente opostas. Para ele, as medidas estão muito aquém dos prognósticos do próprio Obama. ¿O plano não é tão forte quanto a linguagem empregada para descrever a ameaça econômica¿, compara. A argumentação parece consistente. O economista parte da premissa de que a economia americana corre o risco de encolher mais de US$ 2 trilhões, em vez do US$ 1 trilhão mencionado por Obama, e lembra que ¿cada dólar em gasto público aumenta o PIB em cerca de US$ 1,5¿, para lastimar que ¿apenas cerca de 60% do plano é composto de gastos públicos¿. Por isso, o pacote não deverá preencher mais do que a metade da ¿lacuna produtiva¿ (a diferença entre a capacidade da economia e o seu desempenho efetivo em período de forte retração da demanda, acentuando o círculo vicioso da recessão). A hipótese do crítico é de que ¿o plano é limitado pela cautela política¿.
Isso o teria impedido de alcançar a marca ¿politicamente sensível¿ de US$ 1 trilhão e explicaria a inclusão de grandes cortes de impostos para as empresas, ¿que trazem votos republicanos, mas pouco ajudam a economia¿. De uma forma ou de outra, o pacote será decisivo para se saber se, daqui a um ano, como observa David Brooks, a ousadia de Barack Obama terá feito dele ¿ou um grande presidente ou um presidente falido¿.