Título: Ministério Público suspeita que banco burlou regra do BC
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/12/2008, Economia, p. B5
Documentos da Operação Suíça apontam que o Credit Suisse fazia transações sem passar pela Receita
Jamil Chade
Documentos obtidos pelo Estado em Genebra, que fazem parte da Operação Suíça do Ministério Público Federal (MPF), levantam suspeitas de que o Banco Credit Suisse não estava cumprindo as regras do Banco Central (BC). As suspeitas são de que o banco estaria usando o escritório de representação para abrir contas no exterior para clientes brasileiros sem passar pelo BC ou pela Receita Federal.
Em sua edição de terça-feira, o Estado revelou depoimentos que mostram que doleiros atuavam dentro do próprio Credit Suisse, ainda que o banco tenha negado. Novas evidências mostram que, além do uso de doleiros, o Ministério Público investiga a atuação irregular do banco. Os documentos que levantaram as suspeitas foram apreendidos na Operação Suíça, conduzida pela Polícia Federal, que hoje estão com o Ministério Público Federal e a Justiça Federal.
Em uma ação de busca e apreensão na casa de Carlos Miguel de Souza Martins, chefe do escritório de representação Credit Suisse no Brasil na época, a Polícia Federal obteve milhares de páginas de documentos que só agora começa a decifrá-los. Martins nunca apareceu para depor, apesar das várias convocações.
O sinal de alerta surgiu entre os investigadores com um documento assinado conjuntamente por Alexander Siegenthaler, o então chefe da divisão de private banking para as Américas, baseado em Zurique, e Antonio Quintella, presidente do Credit Suisse Investment Banking no Brasil.
Trata-se do contrato de trabalho do executivo Ricardo Taira para cargo de direção. O documento tem o timbre do banco de investimentos e é datado de 2006. O que chamou a atenção da Polícia Federal é que Siegenthaler, apesar de ser chefe do private banking em Zurich, estava assinando um contrato com o responsável pelo Banco Investimentos Credit Suisse no Brasil. O mais grave é que o documento foi encontrado na casa de Carlos Martins.
Mas os investigadores dizem que as evidências não param por aí. Há, ainda, um documento manuscrito que se refere, em alemão, a uma reunião entre Martins e Siegenthaler, no dia 16 de março de 2006, poucos dias depois da assinatura do contrato de trabalho de Taira.
Na folha de papel pode-se ler, em inglês, ¿encontro com Alex Siegenthaler¿. Naquele momento, o objetivo do encontro era delinear a estratégia de atuação do banco no Brasil, assim como para o private banking. Pela lei, o escritório de representação não poderia abrir ou fechar contas no exterior.
Para os investigadores, o fato de Siegenthaler reunir-se tanto com Martins quanto assinar contratos com o presidente do banco de investimento e do private banking levanta a suspeita da relação entre as duas divisões do banco naquele momento e que, de fato, o escritório de representação estava sendo usado para operações que não estariam autorizadas.
Entre os pontos da agenda da reunião entre Siegenthaler e Martins estão a busca por clientes VIPs ao banco, o estabelecimento de estruturas em São Paulo e no Rio de Janeiro e quantas pessoas seriam trazidas da Suíça para trabalhar nesses escritórios. O documento foi um sinal de alerta para a Polícia Federal.
Um outro documento ainda mostra que Siegenthaler, chefe do departamento de private banking para as Américas, assinou em 2004 carta confidencial promovendo Carlos Martins ao posto de diretor e felicitando o português por sua ¿competência e dedicação¿.
A assessoria do Credit Suisse estima que a relação de Siegenthaler com Martins e, ao mesmo tempo, com o banco de investimentos, não é um problema. A explicação é de que Siegenthaler poderia perfeitamente ter encontros com Carlos Martins, seu subordinado, e atuar na contratação de alguém do setor de private banking.
¿Assinatura de Siegenthaler num contrato de trabalho de private banking e seu encontro com representantes do escritório de representação são compatíveis com a sua função¿, afirmou o banco, por meio de sua assessoria.
O banco ainda disse que suas duas alas atuam de forma separada. ¿O Escritório de Representação faz parte da divisão de private banking do Credit Suisse, é gerenciado por uma equipe na Suíça e atua de forma totalmente separada do Banco de Investimentos Credit Suisse Brasil¿, afirmou a assessoria do Credit Suisse.
O que o banco não soube responder é como o contrato desse outro setor estava na casa de Carlos Martins.
MISTÉRIO
Martins hoje vive em Zurique e trabalha para o Banco Julius Baer. Essa instituição financeira viveu há duas semanas um verdadeiro terremoto. Seu presidente, Alex Widmer, morreu de forma misteriosa, no dia 3 de dezembro, e a imprensa local chegou a falar de suicídio. Mas nenhuma informação adicional foi revelada e o banco rejeitou dar esclarecimentos sobre o motivo da morte.
Antes de ocupar o posto no Julius Baer, Widmer foi presidente-executivo do Credit Suisse, no qual era o chefe de Siegenthaler e, conseqüentemente, chefe maior também de Martins em suas funções como representante no Brasil.