Título: A contribuição do agronegócio
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/01/2009, Notas & Informações, p. A3
Haverá comida suficiente e barata para os brasileiros em 2009, se não ocorrer nenhum desastre no campo nos próximos meses. Pelo menos esta segurança os consumidores podem ter, numa virada de ano marcada por muitas e graves incertezas. A produção de grãos e oleaginosas provavelmente será menor que a da safra 2007-2008, segundo as estimativas oficiais, mas a oferta dos alimentos básicos deverá ser satisfatória, de acordo com as projeções de suprimento do Ministério da Agricultura. No mercado internacional, as cotações agrícolas caíram desde o meio do ano. Com a retração da demanda mundial, deverão continuar acomodadas em 2009, embora possam permanecer acima da média dos cinco anos anteriores.
Em 2008, os preços da comida pesaram no orçamento das famílias brasileiras e foram a maior fonte de pressão sobre o custo de vida. Enquanto os preços ao consumidor aumentaram em média 6,07%, o custo da alimentação subiu 10,39% de janeiro a dezembro, segundo a pesquisa do Índice Geral de Preços de Mercado (IGPM) da Fundação Getúlio Vargas.
A inflação dos alimentos, no Brasil, foi principalmente um reflexo da ascensão dos preços internacionais. Mesmo depois de estourada a bolha das hipotecas e dos preços de imóveis nos Estados Unidos e na Europa, as cotações do petróleo, dos produtos agrícolas e de outras commodities permaneceram elevadas por vários meses. No meio do ano, o preço do petróleo chegou a US$ 147 por barril. Nos últimos dias, esteve abaixo de US$ 40. Os preços dos alimentos atingiram, no mercado internacional, os níveis mais altos em cinco anos, com alta acumulada de 138% entre meados de 2003 e de 2008, segundo levantamento do Banco Mundial.
Nos países pobres e dependentes da importação de alimentos o problema da fome agravou-se e as instituições financeiras multilaterais lançaram programas de emergência para socorrê-los. O Banco Mundial aprovou linhas de financiamento no total de US$ 1,2 bilhão para ajudar 37 países pobres a enfrentar a crise.
No Brasil, não houve problema de oferta. Não tem havido há muitos anos, porque a produção tem crescido mais que o suficiente para o abastecimento interno e para a exportação. O fim do controle de preços e das intervenções desastradas no mercado permitiu ao setor agropecuário desenvolver seu enorme potencial. As principais falhas do governo - uma política agrária equivocada e muita incompetência na gestão de políticas importantes, como a do controle sanitário - têm causado alguma dor de cabeça, mas não impediram a modernização e o fortalecimento do setor.
Para o próximo ano, o governo prevê, segundo seu mapa de suprimento, oferta mais que suficiente dos principais grãos e oleaginosas. Alguns estoques deverão crescer durante o ano, de acordo com as projeções. O estoque de feijão, por exemplo, deverá aumentar de 110,5 toneladas no início da temporada para 254,7 mil no fim. O de milho deverá passar de 12,81 milhões para 13,33 milhões de toneladas. O de trigo, de 1,4 milhão para 1,46 milhão de toneladas.
A ação do governo será fundamental, naturalmente, para garantir aos produtores condições de comercialização razoáveis. Será mais um teste de competência para os gestores da política agrícola. Terão de providenciar o crédito na hora certa e de intervir no momento oportuno para comprar os produtos destinados aos estoques oficiais. O acompanhamento das condições de comercialização será especialmente importante, nesta temporada, porque os preços dos alimentos caíram mais que os custos de produção e o risco de prejuízos para os agricultores é maior que nos últimos anos.
Eles terão a seu favor, no entanto, um câmbio mais favorável à exportação. O dólar mais caro que nos anos anteriores poderá compensar em parte a redução das cotações. Neste ano, as exportações do agronegócio foram mais uma vez a maior fonte do superávit comercial. Nos 12 meses até novembro, o setor exportou produtos no valor de US$ 71,67 bilhões e acumulou um superávit de US$ 59,88 bilhões, 21,21% maior que o dos 12 meses anteriores. Como bloco, a União Europeia foi o destino mais importante, mas a China foi o principal país comprador. Em 2009, a solidez das contas externas de novo dependerá em boa parte do agronegócio.