Título: Política externa virou agenda interna
Autor: Domingos, João; Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/01/2009, Nacional, p. A4
Para embaixador Rubens Barbosa, governo segue cartilha do PT na área
Denise Chrispim Marin, Brasília
As linhas mestras da política externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que priorizam as relações do Brasil com o mundo em desenvolvimento, saíram do PT. Para o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a execução dessa cartilha foi encampada sem resistência ou ressalva pela cúpula do Itamaraty, em 2003, e está na base da pretensão deste governo de alçar o País a uma posição de ativismo nos foros políticos internacionais.
¿A política externa é do PT. O governo precisou defender uma posição independente no mundo para compensar a sua opção neoliberal na gestão macroeconômica¿, afirmou Barbosa. ¿A política externa foi o que o Lula pôde dar ao PT. Virou agenda interna¿, completou.
Aposentado da carreira diplomática desde 2004, o embaixador aponta pelo menos dois equívocos da política externa. O primeiro é a opção pela cooperação Sul-Sul - em que se prioriza a relação com países em desenvolvimento -, em detrimento do reforço necessário às relações do Brasil com as economias mais desenvolvidas. Essa posição levou o governo a desequilibrar suas concessões aos vizinhos sul-americanos, como forma de evitar atritos resultantes de insatisfações pontuais.
Para Barbosa, o mais recente exemplo dessa linha de ação deu-se há uma semana, quando o governo recuou em sua decisão anterior de cortar as importações de gás natural da Bolívia de 31 milhões de metros cúbicos para 19 milhões de metros cúbicos entre janeiro e abril. Mesmo com um prejuízo estimado em US$ 300 milhões, a Petrobrás teve de subir esse limite a 24 milhões por ¿considerações políticas¿.
O presidente Lula se reuniu semana passada com o presidente boliviano, Evo Morales, em Puerto Suárez.
CACIFE
O outro equívoco diz respeito à ambição de colocar o Brasil - e o próprio Lula - no centro dos debates políticos internacionais. Para Barbosa, o País tem cacife para atuar como protagonista nos foros econômico-comercial, de energia e de meio ambiente. Mas carece de forças para atuar no campo político, como em uma eventual retomada das negociações de paz entre Israel e Palestina. ¿Não tivemos cacife nem para resolver a guerra das papeleiras entre a Argentina e o Uruguai, quanto mais para influir em processo de paz no Oriente Médio¿, afirmou.
¿O ativismo para chamar a atenção sobre o Brasil não é justificável na área política¿, completou.