Título: Lula e BC não aceitam o seja o que Deus quiser por juro menor
Autor: Nogueira, Rui; Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/01/2009, Economia, p. B3
Temor da volta da inflação alta, por causa do dólar caro, ainda ronda o Planalto e Meirelles
Rui Nogueira e Vera Rosa, BRASÍLIA
A primeira reunião de 2009 do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os próximos dias 20 e 21, já tem um roteiro técnico e político definido. Pela avaliação dos economistas do Banco Central (BC), o governo ¿está ganhando a batalha das expectativas¿ e, ¿o mais provável¿, é que haja mesmo um corte de pelo menos 0,25 ponto porcentual na Selic que está hoje em 13,75%. Mas a decisão de reduzir a taxa básica de juros vai depender explicitamente dos números da economia e dos preços, seguindo o pacto político anti-inflação existente entre o presidente do BC, Henrique Meirelles, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em uma conversa recente, a equipe econômica e o Planalto selaram um acordo traduzido nesta frase: ¿Não será na base do seja o que Deus quiser¿. A frase veio à tona diante da discussão sobre fazer um corte de juros no início deste ano para ¿sinalizar¿ a manutenção da política de crescimento econômico, mostrando aos investidores que o País trabalhará para não entrar em recessão.
Meirelles tem dito ao presidente da República que o BC está comprometido com a política antirecessão, mas os dois têm concordado que o ¿pior dos mundos¿ seria o País conseguir manter a taxa de desemprego sob controle e segurar o poder de compra da sociedade, mas ver a demanda cair por causa dos preços altos. A ¿sinalização¿ do corte na Selic, disse na sexta-feira uma fonte da equipe econômica ao Estado, não pode desprezar, por exemplo, ¿eventuais sinais de repasse da alta do dólar aos preços das mercadorias brasileiras¿. Desprezar isso, explicou a fonte, seria adotar a tal política do ¿seja o que Deus quiser¿ com a inflação.
¿EVITANDO REPASSES¿
O ¿mais provável¿ é que haja mesmo o corte no primeiro Copom porque os números objetivamente apontam o tal controle de expectativas. ¿Estamos notando que a indústria e o comércio estão evitando os repasses do dólar por entender que o consumidor vai deixar de comprar se isso acontecer¿, disse uma fonte do Banco Central. ¿Até agora tem sido isso, mas vamos monitorar¿, advertiu, lembrando, a favor da redução da Selic, que o relatório de inflação do BC divulgado no final do ano trouxe uma expectativa de inflação do mercado para 2009 em torno de 4,7%, ante uma meta oficial que, no centro, prevê inflação de 4,5%. ¿As expectativas parecem ajustadas¿, disse.
No Planalto, o presidente Lula não esconde que espera mesmo que o primeiro Copom do ano reduza os juros. Ele tem dito que não vê motivos para a manutenção dos juros em patamar elevado num momento de queda da inflação. A ordem, porém, é para que os ministros não estiquem a polêmica.Nos bastidores do governo, o comentário é que, quando muitos começam a reivindicar tesourada nos juros, o BC sempre adota posição mais cautelosa, para mostrar independência.
Preocupado em sustentar o ritmo de atividade econômica, Lula também deteminou à equipe econômica que não promova cortes nos programas sociais e mantenha a previsão de reajuste do salário mínimo para R$ 465, já que esse dinheiro vai direto para o consumo. O governo avalia que políticas sociais, como o Bolsa-Família não têm nada de