Título: Copom acena com novo corte nos juros
Autor: Gobetti, Sérgio
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/01/2009, Economia, p. B4
Ata de reunião admite que País não sofre mais pressões inflacionárias
Sérgio Gobetti, BRASÍLIA
A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que decidiu pela redução da taxa de juros em um ponto porcentual reconhece, pela primeira vez desde o início da crise financeira, que a demanda deixou de ser um problema para a inflação e começou exercer um efeito "contracionista" sobre a atividade econômica. O cenário que pautou a decisão do Banco Central indica que a estimativa de inflação de 2009 já estaria abaixo do centro da meta de 4,5%, o que justificaria a continuidade do processo de queda da Selic.
O novo tom da ata do Copom e seu diagnóstico sobre a crise no Brasil e no exterior alimentaram as apostas no mercado de que o Copom pode repetir a mesma dose de corte da Selic na próxima reunião de 10 de março. "No mínimo, a ata colocou o corte de um ponto no páreo, mas acredito ser difícil o BC repetir essa magnitude de queda porque o cenário ainda é de muitas incertezas", comentou o estrategista-chefe do Credit Agricole do Brasil, Vladimir Caramaschi.
"Avaliamos que o atual quadro, composto por fraqueza na atividade econômica e perspectivas inflacionárias condizentes com a meta, continuará vigorando nos próximos meses, o que mantém aberto o espaço para cortes adicionais na taxa Selic", disse o economista-chefe do Banco fator, José Francisco de Lima Gonçalves.
Na equipe econômica, a aposta também é de novas reduções na taxa de juros, embora o texto da ata tenha sido considerado um pouco ambíguo sobre a extensão do corte, na medida em que diz que ""parte relevante"" do movimento de queda já foi realizado. A expectativa de boa parte dos economistas hoje é de que a Selic caia até pelo menos 11% nas próximas três reuniões, o que manteria a taxa real de juros em torno de 6,5% - ainda bastante alto para os padrões internacionais atuais.
Três fatores elencados na ata do Copom permitem entender a guinada da diretoria do BC, que até dezembro resistia em reduzir a taxa de juros por temer a aceleração inflacionária. Esse temor está relativizado pela percepção de que a retração da atividade econômica contribui para a menor pressão da demanda sobre os preços.
"Há sinais de que, depois de um longo período de expansão, a demanda doméstica teria passado a exercer influência contracionista sobre a atividade econômica, a despeito da persistência de fatores de estímulo, como o crescimento da renda", diz o documento do BC.
Além disso, a ata salienta que a crise internacional, com consequente queda de preços de commodities e aumento das restrições de crédito, também limita o espaço de alta da inflação, embora ainda apresente efeitos potencialmente contraditórios. O terceiro e determinante fator que levou o Copom a mudar de postura, entretanto, foi a constatação de que a ameaça de repasse da depreciação cambial para os preços não se concretizou nem deve se concretizar.
Até dezembro, o presidente do BC, Henrique Meirelles, argumentava que o Brasil apresentava situação econômica diferente da americana ou europeia e que, por isso, não poderia adotar as mesmas políticas.
RISCO MENOR
Principais trechos da ata:
Há sinais de que, depois de um longo período de expansão, a demanda doméstica teria passado a exercer influência contracionista sobre a atividade econômica, a despeito da persistência de fatores de estímulo, como o crescimento da renda.
A perda de dinamismo da demanda doméstica reduz as pressões inflacionárias.
O desaquecimento da atividade, com reflexos diretos sobre a demanda e o crédito, terá efeito deflacionário.
Diminuiu a probabilidade de que pressões inflacionárias inicialmente localizadas venham a apresentar riscos para a trajetória da inflação.
Em um ambiente de redução global das pressões inflacionárias, não há evidências nítidas de repasse da depreciação cambial para os preços.
Atualmente, há um risco menor de repasse de preços do atacado para o varejo.
O efeito da desaceleração global sobre a trajetória da inflação doméstica parece ser, até o momento, predominantemente benigno.