Título: Câmbio detém invasão chinesa
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/02/2009, Economia, p. B7
Crédito curto também impede o avanço das exportações asiáticas
Cláudia Trevisan
O temor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) de que o Brasil seja invadido por produtos chineses que deixaram de ser vendidos para Europa e EUA em razão da crise global ainda não se refletiu nas estatísticas do comércio bilateral.
Depois de crescer extraordinários 70% até setembro, as importações do país asiático desaceleraram a partir de outubro, quando a crise se agravou, e fecharam o ano com uma alta ainda impressionante de 59%. Em janeiro, os embarques chineses para o Brasil caíram 8%, a primeira retração da década.
Os fabricantes chineses estão desesperados à procura de novos mercados para compensar a queda brutal de suas vendas para os países desenvolvidos, e o Brasil é um de seus alvos. Mas por enquanto, a desvalorização do real e a ausência de crédito para financiar as operações evitaram que os embarques para o Brasil crescessem a uma velocidade ainda maior que a dos primeiros nove meses de 2008, disseram ao Estado diretores de duas tradings que atuam no comércio bilateral.
Li Yong Hong, sócio da Comexport China, afirmou que seu faturamento caiu 30% desde outubro em razão da queda nas vendas da China para o Brasil, que respondem por 95% de suas operações. "Os fabricantes chineses querem vender para todo o mundo, mas ninguém vai colocar um produto no Brasil sem cobrar. Tem de ter cliente, tem de ter comprador", disse Li, que atua nos setores de fertilizantes, maquinário, têxtil, petroquímico e aço.
Quando o real se desvalorizou no fim do ano passado, vários importadores tentaram cancelar contratos realizados com a China a um câmbio de R$ 1,60, lembrou Frederico Clemente, diretor da Globalize, empresa que desde 2003 atua no comércio entre os dois países.
"Antes da crise, um produto comprado na China a US$ 1 chegava no Brasil a R$ 3. Hoje, chega a R$ 4, R$ 4,50", exemplifica. Clemente trabalha principalmente com exportações do país asiático para o Brasil nos setores de materiais de construção, ferramentas manuais, aço, produtos químicos para a indústria farmacêutica e moda.
Seu faturamento caiu 30% desde setembro e despencou 50% em janeiro, mês tradicionalmente ruim em razão do Ano Novo chinês. Clemente observou que a desvalorização do real reduziu a competitividade de vários produtos que exporta.
No caso das ferramentas, ele ressaltou que antes da crise os preços da Tramontina no Brasil eram 70% superiores aos dos produtos chineses. Agora, a diferença é de 25%, o que faz com que o importador prefira comprar no mercado nacional a correr os riscos de uma negociação internacional: "Os brasileiros estão com medo de importar porque não sabem o que vai acontecer com o dólar."
Mas o cenário poderá mudar nos próximos meses com a provável queda nos preços de várias mercadorias chinesas, em consequência da diminuição dos custos de insumos e matérias-primas. No caso de produtos industriais, um dos elementos mais importantes é o aço, cujo preço na China despencou de US$ 1.100 para US$ 600 a tonelada - uma retração de mais de 50%, comparada a um recuo de apenas 15% no Brasil.
Além disso, os exportadores chineses estarão ativamente procurando compensar a queda nas vendas para EUA e Europa. "Se eles não venderem para seus mercados tradicionais, eles vão procurar novos mercados e o Brasil ainda é um mercado novo para os chineses", afirmou Clemente.
O empresário disse que em 2004 os chineses representavam apenas 5% dos participantes da Feira Internacional da Indústria da Construção, em São Paulo. No ano passado, já era 20%.
Os embarques chineses para o Brasil aumentaram no ano passado 59%, enquanto as importações brasileiras como um todo tiveram alta de 44%. A velocidade de crescimento chegou ao pico de 77% em setembro e desacelerou a partir de então, em razão da crise: foi de 45% em outubro, 32% em novembro e 21% em dezembro.
Em janeiro, as importações de produtos chineses pelo Brasil caíram 8%, enquanto as importações totais recuaram 12,6%. No mesmo período, as exportações brasileiras para a China tiveram alta de 18%, a única expansão entre os parceiros relevantes do país.