Título: Não é chique emprestar ao FMI?
Autor: Andrei Netto
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/04/2009, Economia, p. B4
Lula quer ser o presidente que emprestou uns "reaizinhos" ao Fundo
Andrei Netto, LONDRES
Dez anos depois de solicitar o último grande empréstimo ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil vai inverter a lógica e anunciar o aporte de recursos na instituição. O anúncio do valor só depende da confirmação de que o País poderá comprar bônus e continuar a considerá-los como parte das reservas internacionais, explicou na noite de ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
De alto astral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: "Gostaria de passar para a história como o presidente que emprestou uns reaizinhos ao FMI".
Ontem, no G-20, os chefes de Estado e de governo reunidos no ExCel London decidiram que, dos US$ 750 bilhões que o FMI receberá de aporte, US$ 250 bilhões serão originários da emissão de Direitos Especiais de Saque (SDR) , uma espécie de bônus emitido pela fundo.
Outros US$ 500 bilhões terão origem nas linha de crédito New Arrangements to Borrow (NAB). Além desses recursos, o Fundo poderá contar ainda com doações bilaterais, como as já anunciadas pelo Japão e pela União Europeia, cada um de US$ 100 bilhões, e da China, de US$ 40 bilhões.
O aporte de recursos do governo brasileiro deverá ocorrer por meio da aquisição de direitos especiais de saque. Segundo Mantega, o Ministério da Fazenda consultou o diretor-geral do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, sobre a possibilidade de adquirir os títulos e continuar a contar o valor como parte das reservas internacionais do País.
"Em princípio será possível", afirmou o ministro, admitindo que espera apenas a publicação das regras do aporte. "Não queremos é perder parte das reservas."
A resposta de Strauss-Kahn é esperada "para os próximos dias", quando o Brasil vai anunciar o valor que investirá no FMI. Mantega descartou que o aporte será proporcional à participação do País no Fundo, de 1,7%, o que pressuporia um investimento de US$ 4,25 bilhões. Outro condicionante imposto pelo governo brasileiro é que os recursos que forem injetados no Fundo sejam usados por países subdesenvolvidos e emergentes que enfrentem a turbulência global.
Em entrevista coletiva concedida na noite de ontem, na embaixada de Londres, Lula comemorou a proximidade do acordo com o fundo, que transformará o País de um devedor crônico a um credor da instituição.
"Você não acha chique que o Brasil empreste dinheiro ao FMI?", perguntou o presidente, lembrando ter entoado gritos de "Fora FMI" nos tempos de militância sindical.
"O Brasil gostaria de emprestar esses recursos, desde que não se mexa nas reservas", reiterou, antes de voltar a brincar sobre a iniciativa de emprestar recursos ao Fundo.
Aproveitando o tema, Lula mandou um recado aos mercados financeiros ao reafirmar que o Brasil não seguirá a atitude do México, cujo governo solicitou nesta semana um empréstimo de US$ 45 bilhões ao organismo. "O Brasil não precisa do dinheiro do FMI, graças a Deus. Não falo por soberba, porque, se um dia precisar e o fundo for a única fonte, vamos pedir."
NÚMEROS
US$ 100 bilhões é o aporte individual ao Fundo Monetário Internacional (FMI) já anunciado pelo Japão e pela União Européia (UE)
US$ 40 bilhões é o aporte prometido pelo governo da China
US$ 45 bilhões foi o valor solicitado ao Fundo Monetário Internacional (FMI), no início da semana, pelo goveno do México
1,7 % é a participação do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI). Se o aporte do Brasil fosse proporcional a essa fatia, seria de US$ 4,25 bilhões. Mas o ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, descartou essa proporção. O anúncio seria a contribuição brasileira deve ser feito ?nos próximos dias?
REPERCUSSÃO
Dmitry Medvedev Presidente da Rússia
"Vinte anos atrás seria impossível imaginar uma situação em que nações tão diferentes, com tão diferentes economias, várias mentalidades e tradições poderiam sentar na mesma mesa e concordar em como agir e fazer isso rápido"
Kevin Rudd Primeiro-ministro da Austrália
"O acordo de hoje é um começo para aplicar medidas duras aos cowboys do mercado financeiro que trouxeram a ruína ao mercado global com impactos reais ao emprego em todos os lugares"
José Manuel Barroso Presidente da Comissão Europeia
"É um momento histórico, definitivo para nossa resposta global à crise. O fato de o presidente Obama ter mostrado vontade de se engajar é um sinal muito bom de que vamos alcançar um acordo este ano"
Jose Luis Zapatero Primeiro-ministro da Espanha
"É o maior plano de expansão fiscal da história. Não tem precedentes. Ele vai contribuir de forma decisiva para facilitar a recuperação da economia mundial para preservar milhões de empregos"
Manmohan Singh Primeiro-ministro indiano
"É importante e necessário para a cúpula tomar decisões de credibilidade que vão ajudar a reverter a atual crise e introduzir um senso de confiança na economia global. Estou voltando para casa muito satisfeito com o resultado da reunião"
Paul Krugman Economista
"Os resultados do G-20 foram melhores do que eu esperava, com alguma coisa substantiva e importante surgindo - em outras palavras, muito mais recursos para as instituições financeiras internacionais, além da expansão do crédito comercial"