Título: China contraria previsões e mantém valor de pacote
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/03/2009, Economia, p. B13

Mercados registraram ontem forte alta na expectativa de que governo chinês engrossasse o estímulo anticrise de US$ 586 bilhões para US$ 1,5 trilhão

Cláudia Trevisan

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, contrariou a expectativa dos mercados de todo o mundo de que lançaria um pacote adicional de estímulo econômico hoje (podendo chegar a US$ 1,5 trilhão) e manteve a cifra de US$ 586 bilhões divulgada no ano passado.

Em discurso na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, realizado às 9 horas de hoje (22 horas de ontem em Brasília), Wen afirmou ainda que a meta de crescimento para este ano é 8%.

As bolsas de todas as regiões tiveram fortes altas ontem com a aposta de que Wen comunicaria aos 3 mil delegados reunidos em Pequim a ampliação dos investimentos para enfrentar a desaceleração econômica. Os principais índices subiram com vigor, após uma série de perdas que na véspera os levaram aos menores níveis em mais de uma década. Em Nova York, o índice Dow Jones subiu 2,23%% e o Nasdaq, 2,48%. Em Paris, a alta foi de 4,74%; em Frankfurt, 5,42% e em Londres, 3,81%. A Bovespa fechou o pregão de ontem com alta de 5,31%.

Os US$ 586 bilhões (4 trilhões de yuans) serão gastos nos próximos dois anos na construção de casas para a população de baixa renda, melhoria das condições de vida da população rural, obras de infraestrutura, programas sociais, proteção ambiental, aperfeiçoamento tecnológico e reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto de maio de 2008.

A previsão do governo é que o déficit público triplique e alcance cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. O governo garantirá 1,18 trilhão de yuans dos recursos do pacote. O restante virá das províncias, das estatais, do setor privado e de empréstimos bancários.

O ritmo de expansão do PIB chinês desacelerou para 6,8% no quarto trimestre de 2008 e fechou o ano com expansão de 9%, o menor nível desde 2001. Para 2009, os analistas esperam crescimento inferior a 7% o que, para a China, equivale a recessão. O governo acredita que o país deve crescer no mínimo 8% para absorver os migrantes rurais que se mudam para as cidades e os jovens que entram no mercado de trabalho.

Mesmo sem o aumento esperado pelo mercado, o pacote trará um aumento expressivo do gasto público chinês neste ano. Para Wen, esse é "o caminho mais ativo, direto e eficiente para expandir a demanda doméstica". O primeiro-ministro ressaltou ainda que os investimentos não serão destinados às atividades produtivas, o que poderia agravar a já elevada capacidade ociosa do país. "Nós devemos canalizar os investimentos do governo para áreas que possam melhor contrabalançar os efeitos da crise global e para setores mais frágeis no desenvolvimento econômico e social. Nenhum investimento do governo será feito na indústria de processamento."

O grande debate na China é como estimular o consumo doméstico em um momento de retração da demanda mundial. Para muitos economistas, o pacote anunciado em novembro tem poucas medidas nessa direção. Analistas privados e setores do Partido Comunista defendem o aumento de gastos na criação de uma rede de proteção social, que permita aos chineses pouparem menos e consumirem mais. Também são favoráveis as transferências diretas de recursos para os milhões que perderam ou perderão seus empregos em razão da desaceleração econômica, o que poderia estimular o consumo e reduzir a instabilidade social.

O governo estima que 20 milhões de migrantes rurais ficaram sem ocupação nos últimos meses. Além disso, 6 milhões de recém-formados entrarão no mercado de trabalho neste ano e terão poucas chances de encontrar uma colocação.