Título: Gol encolhe no mercado financeiro
Autor: Komatsu, Alberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2009, Economia, p. B10

As duas maiores empresas aéreas brasileiras tiveram em 2008 um desempenho nunca visto - juntas, somaram um prejuízo de R$ 2,74 bilhões (R$ 1,38 bilhão da Gol e R$ 1,36 bilhão da TAM). As duas sofreram com o impacto da desvalorização cambial sobre os ativos e sobre as dívidas em dólar. E a TAM ainda teve de contabilizar perdas com operações de hedge para combustível. Mas, apesar de aparentemente quase idênticos no prejuízo, os balanços trazem uma diferença fundamental. Na operação propriamente dita, a TAM teve lucro de R$ 688 milhões, enquanto a Gol registrou um prejuízo de R$ 88,6 milhões.

Para o mercado, esses números ilustram um cenário que mudou muito nos últimos quatro anos. Desde 2005, a Gol passou da euforia de ser a sensação do setor aéreo e do mercado de capitais, com o seu inovador conceito de custos e tarifas baixas no País, para a frustração de valer um décimo do seu valor de mercado. Se naquela época a Gol era avaliada em R$ 13 bilhões, o dobro dos R$ 6,4 bilhões da TAM, o preço em bolsa da Gol desabou para algo em torno de R$ 1,4 bilhão, ou dois terços do valor atual da TAM, de cerca de R$ 2,1 bilhões.

Segundo analistas de mercado e consultores, o recuo no valor de mercado da Gol, conforme levantamento da consultoria Economática feito a pedido do Estado, teve forte contribuição da aquisição da Varig, em março de 2007, por US$ 320 milhões. Até outubro de 2008, essa negociação já havia custado à Gol R$ 1,2 bilhão, incluindo-se aí o valor da aquisição e prejuízos. A própria Gol reconhece que a compra da Varig teve influência para as suas perdas.

"A Gol perdeu o encanto de ser nova, ousada e criativa. Isso não acontece da noite para o dia, mas é natural que ocorra se não tomar cuidados extremos", avalia o presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo (Cepta), Respício Espírito Santo Jr.

Na opinião do consultor aeronáutico Paulo Bittencourt Sampaio, a compra da Varig foi a principal falta de cuidado da Gol. "A Gol mudou completamente o foco. De janeiro de 2001 a março de 2007, a Gol não cometeu um único erro. Mas a partir da compra da Varig, em março de 2007, tudo começou a dar errado", diz.

Pelos cálculos do consultor, a projeção de crescimento da demanda da Gol realizado no final de 2006 previa que a companhia ultrapassaria a TAM no mercado doméstico no final de 2007. Em fevereiro, a diferença de participação de mercado das duas companhias era de 9,62 pontos porcentuais, sendo que essa diferença chegou a 0,68 ponto porcentual em abril de 2008. "Com a compra da Varig, a Gol começou a se concentrar no mercado internacional, trouxe aviões inadequados e apresentou um serviço que irritou os passageiros."

O especialista em aviação da consultoria Bain & Company, André Castellini, também avalia que a aquisição da Varig desviou o foco da Gol. "Com a compra da Varig e o crescimento da Gol, ela saiu do seu modelo original, que era custos baixos e simplicidade", diz.

SEM ARREPENDIMENTO

O vice-presidente de marketing e Serviços da Gol, Tarcísio Gargioni, nega, porém, que a empresa tenha abandonado seu desenho inicial e afirma que a Gol não se arrepende de ter comprado a Varig. "Em 2007 e 2008 nós investimos na compra de uma nova empresa. Nesse período, essa nova empresa contribuiu para resultados negativos. No longo prazo vamos ter resultados", diz o executivo.

Segundo Gargioni, o segundo semestre do ano passado apresentou um bom sinal, já que os resultados operacionais da Gol foram positivos, o que pode representar o "começo de uma inversão de curva". Ele lembra que o prejuízo de 2008 também teve a contribuição do desempenho operacional fortemente negativo do primeiro semestre.

"A Varig continua sendo uma boa aquisição. A Gol, do ponto de vista operacional, está muito mais forte. Ela comprou a Varig por causa de Congonhas (por conta dos intervalos de pouso e decolagem no aeroporto) e do programa de fidelidade Smiles. Esses dois ativos ninguém deu valor ainda", avalia o vice-presidente financeiro e de relações com investidores da Gol, Leonardo Pereira.

Apesar desse otimismo, o próprio presidente da Gol, Constantino de Oliveira Junior, disse recentemente que 2009 será um ano difícil para a companhia. Durante participação no Fórum Panrotas - Tendências do Turismo 2009, realizado no mês passado, o executivo disse que seria complicado para o setor fechar as contas este ano. Segundo ele, a tendência das empresas é fazer promoções para atrair clientes, o que deve se refletir no balanço.