Título: Obama e Brown buscam o consenso
Autor: Sant?Anna, Lourival
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/04/2009, Economia, p. B3

Presidente atribui a ?exageros? da imprensa a tensão com Alemanha e França no debate sobre pacotes e regulação

Lourival Sant?Anna

O presidente americano, Barack Obama, e o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, apostaram ontem o seu capital político na obtenção de um consenso na reunião de cúpula de hoje do G-20, que reúne as 20 maiores economias e 85% de tudo o que é produzido no mundo. Em outra reunião bilateral, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, reafirmaram seu compromisso com um rigoroso sistema de regulação do setor financeiro. Mas Sarkozy não ameaçou de novo abandonar a cúpula se não fosse atendido nessa exigência, como vinha fazendo nos últimos dias.

Representantes dos Ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores dos países-membros do grupo continuavam negociando ontem à noite o texto do comunicado final, que deve ser assinado hoje. A questão da regulação do sistema financeiro parecia equacionada, assim como a necessidade de injetar dinheiro na economia.

"Estou absolutamente confiante que esse encontro refletirá enorme consenso sobre a necessidade de trabalhar de forma concertada para enfrentar os problemas", disse Obama, em entrevista, ao lado de Brown. Ele atribuiu as tensões entre EUA e Grã-Bretanha, de um lado, e Alemanha e França, de outro, a "exageros" da imprensa. Enquanto os primeiros davam ênfase à necessidade de pacotes de estímulo da economia, os últimos estavam mais preocupados com a regulação.

"O fato é que quase todos os países que participam nessa cúpula se engajaram em estímulo fiscal", argumentou Obama. "Não tem havido disputa sobre a necessidade de os governos agirem em face de mercados que estão se contraindo rapidamente e de desemprego muito alto. Há diferenças em termos de como esse estímulo deve tomar forma", admitiu ele, citando o fato de que alguns países europeus têm maiores redes de seguridade social, e por isso não necessitam tanto quanto os EUA de estímulos fiscais. "São discussões marginais."

"A noção de que alguns estão pressionando pela regulação e outros estão resistindo é desmentida pelos fatos", continuou Obama. Por via das dúvidas, ele advertiu aos que temem a explosão do déficit público: "Não comprometa o futuro por um medo no presente."

Brown mostrou-se ainda mais otimista: "Estamos a poucas horas de um acordo sobre um plano global de recuperação econômica e reforma". À pergunta sobre a ameaça de Sarkozy de deixar a cúpula antes do fim, Brown respondeu: "Estou absolutamente confiante. O presidente Sarkozy não só estará aqui para o primeiro prato, mas ainda estará sentado ao terminarmos o jantar".

Mais tarde, Sarkozy classificou de "inegociável" uma regulação mais rigorosa. Ele disse que, para a França e a Alemanha, medidas concretas contra paraísos fiscais, fundos de hedge e agências de classificação de riscos são "linhas vermelhas" nas negociações. Mais moderada, Angela Merkel disse que ela e o Sarkozy tinham uma atitude "bastante construtiva", mas adiantou: "Não queremos resultados que não tenham impacto na prática".