Título: Lucro da Vale cai 1% no primeiro trimestre
Autor: Carvalho, Daniele; Gomez, Natália
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/05/2009, Economia, p. B16
Operações financeiras garantem resultado, mas caixa foi afetado
Daniele Carvalho e Natália Gomez
A queda na demanda mundial e a redução do preço dos minérios afetou fortemente a geração de caixa da Vale no primeiro trimestre, apesar de o lucro ter se mantido estável. A geração de caixa da companhia encolheu em 18% na comparação com o primeiro trimestre de 2008, totalizando R$ 5,446 bilhões, enquanto o lucro líquido caiu apenas 1%, de R$ 3,18 bilhões para R$ 3,15 bilhões.
Com a retração da economia mundial, além de vender menos, a empresa precisou dar um desconto de 20% em seus preços para os clientes na Ásia para impulsionar suas vendas. Mas os efeitos da crise ficam ainda mais evidentes ao se analisar o balanço pelo padrão de contabilidade americano. Em US Gaap, a queda no lucro líquido foi de 32,5%, para US$ 1,363 bilhão no trimestre.
A redução das vendas de minério refletiu a crise vivida pelo setor de siderurgia, principal cliente da Vale. O volume de vendas caiu 27% no primeiro trimestre e passou de 68,297 milhões de toneladas para 49,829 milhões de toneladas. O volume se aproxima dos níveis de 2004, quando a Vale comercializou 46,825 milhões toneladas de minério no primeiro trimestre. No segmento de pelotas de ferro, a queda foi ainda mais drástica, com redução de 72%, passando de 8,275 bilhões de toneladas para 2,271 bilhões de toneladas.
Os preços praticados neste segmento são outra evidência de que os tempos mudaram. No primeiro trimestre, o minério foi vendido pela Vale por US$ 62,79 por tonelada, 15% abaixo do obtido no quarto trimestre do ano passado, de US$ 73,92. As pelotas caíram de US$ 145,25 por tonelada para US$ 118,45 por tonelada em relação ao trimestre anterior. Como o preço do contrato é o mesmo para os dois períodos, esta diferença significa que a Vale está concedendo descontos para estes produtos desde os primeiros meses do ano. Recentemente, a empresa havia informado uma política de descontos de 20% sobre os contratos para a Ásia, medida muito rara neste setor. Mesmo com esta erosão, os preços continuam acima dos praticados no mesmo período do ano passado.
Outra mudança importante foi o aumento da participação da China nas vendas da mineradora. No trimestre, os chineses representaram 43,6% das vendas, enquanto no mesmo período do ano passado sua fatia era de 18,9%. O segundo principal destino foi o Brasil, com 11,9%, seguido de Japão (8,6%), Estados Unidos (5,3%), Coreia do Sul (4,5%), Canadá (3,8%) e Alemanha (3,6%). "Fora da China, a demanda por minério de ferro permanece extremamente fraca, com o Japão, o segundo maior importador, reduzindo suas compras em 34,4% no primeiro trimestre relativamente ao primeiro trimestre de 2008", afirmou a Vale.
Apesar de compensar a queda da demanda de outros mercados, o avanço da China gera um efeito negativo porque os preços praticados na região são menores. A maior dependência em relação à China também pode ser prejudicial para a Vale porque dá maior poder de barganha aos chineses, que estão negociando o novo reajuste do minério de ferro com as mineradoras neste momento.
Já em relação ao níquel, segundo produto mais importante para empresa, as vendas no primeiro trimestre caíram 10,6% na comparação com o mesmo período do ano passado, totalizando 59 mil toneladas. Com o produto, a mineradora brasileira faturou US$ 639 milhões, cifra 66,2% menor que na comparação com o igual período de 2008.
A preocupação da mineradora com os negócios de níquel levou a empresa a anunciar a postergação de dois projetos na área, o de Onça Puma (PA) e a suspensão das atividades da mina de Sudbury, no Canadá